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Todos os anos faço um desafio que consiste em escrever uma história com os livros lidos durante o ano. Trata-se de um exercício que, pelo menos para mim, se tem revelado cada vez mais dificíl, porque depende, e muito, da quantidade e dos próprios títulos dos livros que li durante o ano inteiro.

 

Em 2016, escrevi sobre a avó Maria e, mesmo sendo uma história fictícia, houve quem perguntasse se o meu bisavô era farmacêutico.  No ano seguinte, em 2017, foi mais complicado delinear uma história com algum sentido, no entanto, ultrapassei o desafio com recurso a diálogos entre a Lucy e o João .

 

Durante o ano de 2018, não publiquei uma série de opiniões e, por isso, não há link´s associados aos livros lidos em 2018, como é habitual fazer. 

 

E lembrem-se do seguinte: difícil, difícil, é começar :)

 

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Naquele tempo distante, algures entre um monte e uma planície, a escuridão permitia esconder muita coisa. Sem eletricidade, sem todas as comodidades a que hoje estamos habituados, a vida corria ao sabor dos dias e da luz solar. O tempo era importante. A Noite era assustadora.E não só. As trovoadas eram medonhas. A chuva, essa, fazia fervilhar toda a vida na selva e exudava sons e cheiros por todo o lado. Assim que chovia sentia-se O Perfume da Savana.

 

Após uma noite dessas, de enorme tempestade, surgiu  O Tigre Branco e, à distância, numa pequena aldeia, julgaram ver um pedaço de Terra de Neve, tal era a sua brancura imaculada. Era um facto inusitado e de grande admiração. Todos os que residiam na aldeia se reuniram e pediram A Encomendação das Almas. Um dos habitantes tinha os olhos em bico (afinal, era de Kyoto) e confirmou que via exatamente a mesma coisa. Entretanto, os anciãos mais experientes foram ao Cemitério de Elefantes buscar a arma secreta, uma espécie de cruz em marfim a que atribuiam grande poder. Era apenas uma forma de acalmar os ânimos, porque, na realidade, eles sabiam que se tratava de um objeto que descobriram, após A Morte de Ivan Ilitch, junto dos pertences do estrangeiro que falava uma língua estranha. Era um sujeito, muito pálido e magro, que chegou à aldeia apenas com uma cruz em marfim e dois livros: Os livros do final da tua vida e A Paixão de Jaine Eyre

 

As mulheres da aldeia tinham segredos que nunca ousariam revelar, por medo de serem mortas assim que pronunciassem as primeiras palavras. Ocultaram vários Pecados Santos no seu seio, incluindo os de uma jovem. Ela era filha do chefe e o seu pai mandou-a estudar na cidade. Foi aí que ela soube o que era o mundo e como eram os homens. Soube tudo, até demais, e apaixonou-se por um jovem que aderira à Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata. Mas logo, logo, tudo mudou, porque o jovem mentiu acerca das suas atividades. E foi a droga que transformou a história dessa jovem n´A História de uma Serva. Se o seu pai a visse agora não a reconheceria, pensava desesperada. Mas quis o destino que Um Homem Chamado Ove lhe estendesse a mão e a encaminhasse para um grupo de apoio, o qual usava uma terapia inspirada n´A vida secreta das abelhas. Essa terapia não era agressiva e possuia um procedimento baseado no Código D´Avintes que consistia em reunir várias terapeutas especializadas.

 

Quando se sentiu melhor e longe da escravidão da droga, a jovem, Verónica, pensou que estava na altura de regressar e embarcou no navio Maresia e Fortuna, levando consigo O Alienista do grupo. Ove, assim se chamava ele, estava farto do seu trabalho e ávido para descobrir outros continentes, mas nunca imaginou que teria de atravessar um Vasto Mar de Sargaços. Foi uma viagem difícil para ambos e quando desembarcaram cada um seguiu o seu caminho: a jovem em direção à terra natal e o alienista em direção ao hospital numa maca improvisada.

 

O pai viu Verónica chegar sozinha, sem bagagem, e questionou-a de imediato se já tinha terminado os estudos. Ela, coitada, disse que não, e o pai, furioso, respondeu Quero-te morta e enterrada no local onde foram sepultados os soldados d´O exército perdido. A filha ouviu tudo muito calada. Sentiu cada palavra como sendo justa, uma vez que desperdiçou todas as oportunidades de um futuro melhor. Ficou só. 

 

A Livraria Noite e Dia do Senhor Penumbra ficava perto do hospital e o Ove, quando se sentiu  melhor, resolveu passear. Quando ia a passar pela livraria olhou para a montra e viu um anúncio de oferta de emprego que veio mesmo a calhar. Não tinha lido muitos livros e estava longe de ser o emprego dos seus sonhos, porém, não podia desdenhar a hipótese de ganhar dinheiro para se poder sustentar. Depressa verificou que podia ler todo o santo dia, porque não havia clientes. Quanto ao Senhor Penumbra, nunca o chegou a ver pessoalmente e corria um boato de que ele era como o Frankenstein.

 

Na aldeia, os dias eram iguais, exceto para a Verónica. Ela limpava, fazia as camas, acendia o lume e todas as tarefas que pudessem ser úteis. Também cozinhou o seu famoso Arroz de Palma, que era muito apreciado. O seu pai nem tocou no prato, teimosamente convencido de que seria mais Um Castigo Exemplar. Acabou por sobrar para o Tim, um cãozinho vadio que apareceu a tempo de tal manjar. 

 

Já o Ove, enquanto lia À Espera no Centeio, de J. Sallinger, foi interrompido em plena luz do dia. Era o carteiro que veio entregar várias encomendas de clientes e uma carta misteriosa para si. Assim que ele saiu, Ove, não aguentando a curiosidade, abriu a carta de um tal Dr. Abelardo da Silva. Quase que caia e teve de se sentar. Na carta A avó pede desculpa por tudo o que o fez passar, principalmente na altura em que os seus pais faleceram, uma vez que foi habituada a não revelar os seus sentimentos em público. Ove continuou a ler a estranha carta lembrando-se que a sua avó costumava dizer muitas vezes que Uma mulher não chora. A avó tinha escrito aquela carta como uma espécie de Carta de amor aos mortos ou assim parecia, dado que falava muito do seu falecido avô, do tempo em que se conheceram, do primeiro beijo (com o qual se sentiu estar envolvida Nas Asas do Amor), bem como d´O Processo de divórcio, ocorrido anos mais tarde, quando ele a acusou de levar um´A vida secreta de uma mãe desmazelada.

Ele estava era cansado da vida de casado e queria dar A volta ao mundo em 80 dias, pensou Ove. Nada o fez demover dessa ideia.

 

Verónica continuava a ser desprezada pelo seu pai, mas ela decidiu que ele não a ia impedir de viver o que ela chamou de O meu ano mágico.

Verónica disse para os seus botões: Não vou ligar Às m#rdas que o meu pai diz.

O Despertar para o que a esperava nesse ano era  bem mais importante. 

 

Na livraria, Ove continuava sentado e  a reler a carta da avó. Aquele dia começava a parecer Uma Conspiração de Estúpidos.

Entretanto, entrou um senhor, alto e magro, de chapéu, que se identificou como sendo detetive. Estava a investigar O desaparecimento de Stephanie Mailer e, depois de mostrar uma fotografia, mencionou uma peça de teatro de Adão e Eva e ainda falou d´O Rouxinol. Não encontrando nenhuma pista, o detetive foi-se embora.

Ove tinha ouvido vagamente o detetive e nem deu conta da saída daquele. Ainda não estava em si. A carta de amor da avó possuia palavras poderosas e o estilo Contigo para Sempre pejado de Observações intímas permanecia uma revelação que abalou o mundo tal como ele o conhecia. O seu verdadeiro pai, o pai biológico, vivia num Arquipélago não muito longe dali. Era um chefe muito respeitado e possuia uma ascendência muito antiga. Era O filho de mil homens, considerad´O Estrangeiro .

Agora ele começava a perceber o porquê do seu avô ter abandonado a família e a avó. As Pequenas Grandes Mentiras são como novelos de lã, é só puxar por uma ponta que descobre-se tudo. Afinal, a avó mentiu?!

 

O poder ancestral de Shantaram influenciou geração após geração. As primeiras quinze vidas de Harry August, assim se chamava o pai de Ove, foram muito importantes para Ove descobrir a sua verdadeira vocação. Sempre gostara da agricultura e de um´A quinta dos animais, mas também se sentia fascinado pelas lendas de um tesouro n´O deserto dos Tártaros, mas, como o leitor sabe, acabou por ser alienista quando descobriu que tinha jeito para lidar com pessoas problemáticas.

A dúvida instalou-se nos seus pensamentos. O avô tinha razão para viajar pelo mundo fora e a avó não passava de uma mentirosa? Porque é que a avó não desfez todas as dúvidas na sua carta? Ao invés disso deixou um post scriptum enigmático: «P.S, Um de nós mente»?

 

Verónica decide Morrer, ou melhor fingir a sua morte. Estando à espera de um filho de Gaudi, um romance secreto que manteve com o seu professor de espanhol, surgiu como Pequenos fogos em todo o lado, no corpo, nas mãos e no seu peito, a ideia de fugir. Agarrou nos livros A Boneca Kokoschka, Ensina-me a voar sobre os telhados e Uma Senhora Nunca, e deles retirou várias notas em dinheiro, que tinha escondido entre as páginas.

 

Ove trabalhou durante 7 meses na livraria, mas desde a carta da avó nunca mais foi o mesmo. Ainda leu vários livros, leu O Fogo Será a Tua Casa, Os bebés de Auschwitz, O Canto das Sereias, porém, Help me!continha uma mensagem que lhe deixou o coração nas mãos. A mensagem iniciava com «Confesso ao Spark que o dinheiro para comprar a Livraria Noite e Dia foi roubado ao chefe da aldeia. Confesso ainda que na livraria existe dinheiro escondido num sítio secreto».

Ove tinha lido tudo o que havia para ler e nunca descobriu nada que pudesse conter dinheiro escondido. Que cena de doidos, pensou ele, primeiro a carta da avó, agora a mensagem misteriosa?!

 

Entretanto, a Verónica tinha saído da aldeia e foi para a cidade à procura do seu amigo Ove. Fingiu a sua morte com a ajuda das mulheres da aldeia, pois elas saberiam guardar o segredo. Não lhe faltavam agora Razões para viver uma vida nova. O seu filho iria nascer. Tinha poupado. Tinha trabalhado muito.

Na livraria, O carteiro de Pablo Neruda entrou com mais correio e, novamente, uma carta da avó de Ove vinda d´A ilha das Garças. Será que era desta que Ove iria saber a verdade?

 

Nesse preciso instante tocou a campainha e Ove olhou para ver quem seria aquela hora. Era Verónica. Com um bebé nos braços e um olhar determinado, Verónica encarou-o e disse:

-Olá, Ove. Sou a tua irmã e precisamos da tua ajuda!

 

FIM

 

 


1 comentário

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De Anónimo a 03.01.2019 às 16:19

Que feliz ideia. Uma boa forma de nos obrigar a ler e a memorizar.

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