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Summer moods # 6- Brisa

por editepf, em 28.08.25

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Ir ler para um banco de jardim? Claro, parece saído de Pinterest: sol a bater na perfeição, passarinhos a ensaiar ópera e aquela brisa digna de anúncio de televisão.
A realidade? Sentei-me num bloco de cimento gelado, com o vento a tentar colar o cabelo à cara como se isso fosse ajudar o meu mood de leitura.E a cereja no topo do bolo? O banco exibia orgulhosamente uma palavra obscena, pintada a spray em letras gordas, como quem diz: “Bem-vindo à experiência literária hardcore.”
Conclusão: Ler no jardim? Só se for versão extrema — vento, cimento e palavrões incluídos.
E vocês, arriscavam-se a ler assim ou ficam pelo sofá seguro de casa?

Manifesto da vida de uma mulher

por editepf, em 26.08.25

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Criaram-me um guião de vida: sorrir, ser útil, engolir. Como resposta, resolvi escrever um conto que era sobre uma mulher e esta explodia numa repartição pública e ninguém reparava. Depois explodia outra, e outra. A cidade seguia igual, como se corpos não tivessem caído. Chamaram-lhe distópico. Eu chamei-lhe realista. 

 

Menos scroll, mais vida

por editepf, em 24.08.25

As redes sociais desgastam. É como um poço sem fundo: começo a fazer scroll e, quando dou por mim… já passou uma hora inteira. E a verdade é que o tempo não volta atrás. O tempo é o bem mais precioso que tenho, e não quero gastá-lo todo a olhar para um ecrã.

Então, decidi experimentar algo diferente: coloquei limite de tempo e desliguei-me um pouco. E nesse espaço que abri, coube tanta coisa boa. Escrevi mais para o blog, saí para passear, vi uma série que queria há imenso tempo, almocei com uma amiga e ainda tive energia para um aniversário.

Tudo isto porque larguei, mesmo que por pouco tempo, o hábito de estar sempre agarrada ao telemóvel.

Resultado? Mais tempo para mim, mais presença nas pequenas coisas, e uma sensação de leveza que já me faz sentir muito melhor.

E tu, já pensaste quanto tempo gastas do teu dia no scroll infinito?

A última resistência: abrir um livro

por editepf, em 22.08.25

Capa para Facebook de colagem de fotos com frase d

Em 2019 escrevi sobre a minha crise com o Facebook aqui e a forma como as redes sociais se tornavam um vício, semelhante ao das batatas fritas: satisfazem no momento, mas só nos prejudicam. Nesse tempo já apelava à importância de preservar os hábitos de leitura.

Hoje, ao reler esse texto, percebo como continua atual. O problema já não é o Facebook, é o instagram, o tiktok e o scroll infinito das redes sociais. Pais e filhos, lado a lado, presos ao mesmo ecrã, a deslizar sem parar. E depois, com surpresa, muitos admiram-se quando se fala no fim do Plano Nacional de Leitura. Mas como manter vivo um programa que promove os livros, se ninguém lê? Se os livros são substituídos por vídeos de 30 segundos, por frases rápidas que não pedem reflexão?

Não é apenas a questão do “tempo a mais nas redes”. É um verdadeiro mudança de paradigma. A informação tem de ser instantânea, sem esforço, sem demora. Enquanto isso, a tecnologia avança, cria atalhos, promete pensar por nós. Mas será que ainda sabemos pensar sem ela?

Ler nunca foi apenas um passatempo. É um ato de resistência. É a forma mais simples e poderosa de aprender a refletir, de exercitar o pensamento crítico, de não deixar que outros escolham por nós.

A situação lembra a distopia literária Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, onde os livros eram queimados e a sociedade perdia a capacidade de pensar criticamente — e é exatamente esse cenário que enfrentamos se a tecnologia vencer e não houver livros para nos devolver essa capacidade de reflexão.

Por isso, hoje como em 2019, deixo o mesmo apelo: Por favor, leiam. Ensinem os vossos filhos a abrir um livro… antes que a última resistência se perca, que só saibam deslizar o dedo e, qualquer dia, perguntem como se liga um livro.

Estou a exagerar? Talvez. Mas espero que daqui a [outros] seis anos o que me parece agora uma distopia não se confirme como realidade - e como dura lição. 

 

Gosto de livros. Gosto da forma como me permitem sair da realidade, mergulhar noutras vidas, experimentar emoções que não são minhas e descobrir mundos que só existem no papel. Ler é, muitas vezes, o meu refúgio. Uma pausa no barulho diário. Uma espécie de abrigo.

Mas nem sempre consigo manter-me lá dentro. Há momentos em que “acordo” desse refúgio e volto a olhar para o que me rodeia. E, sinceramente, nem sempre gosto do que vejo. A realidade não tem a leveza da ficção. Traz problemas que não se resolvem no virar da página e capítulos que parecem repetir-se vezes demais.

Penso, sobretudo, nas notícias. Ultimamente, os incêndios parecem uma saga interminável. Todos os anos regressam, como se alguém lançasse sempre mais um volume de uma coleção que nunca quisemos ler. O enredo é o mesmo: destruição, medo, impotência. Desculpem a comparação, mas quase dá a sensação de que os “editores” desta realidade não sabem escrever outra coisa.

E aqui estou eu, dividida entre dois mundos: o das histórias que me confortam e o da vida que insiste em repetir capítulos negros que já lemos vezes demais. 

Às vezes dava tudo para desligar por uns minutos, fechar os olhos e fingir que o mundo podia esperar. Seria tão mais fácil… se o mundo alguma vez tivesse a cortesia de obedecer. Talvez seja por isso que os livros me fazem tanta falta: não para fugir, mas para me armarem de paciência e resiliência suficientes para continuar a assistir sem poder fazer nada.

 

 

Summer moods #1 — Férias

por editepf, em 08.08.25

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Começo o desafio Summer Moods com o tema mais óbvio… e talvez o mais enganador : Férias. Porque, na verdade, férias nem sempre significam uma viagem marcada no calendário, uma mala feita à pressa ou um destino longínquo. Às vezes, férias são só uma pausa. Um momento só nosso. E, para mim, isso acontece sempre que me sento a ler.

Na foto que partilho hoje, aparece o livro As Últimas Férias, de Louise Candlish.

Curioso, porque no meu caso não há "últimas". Há sempre mais uma página, mais uma história entre as mãos. Mas ao preparar este post, lembrei-me de uma imagem antiga: uma mala de viagem com muitos livros. Tirei a foto antes de partir e, na altura, achei que estava a exagerar —era só para compor a imagem. Mas levei meia dúzia. E li dois.Hoje percebo que não estava a fingir. Estava só a preparar-me para as minhas verdadeiras férias: as literárias.

Há quem precise de bilhetes de avião, mapas e malas cheias. Eu preciso de um bom livro. 

E tu, o que é que te faz sentir verdadeiramente de férias?🌴

 

 

Li pela primeira vez a sigla ASMR num comentário da Vera à publicação em que contei quanto os unboxing me dão nervos. Não associei logo o que era e inventei: Associação Secreta de Mulheres que Recebem Encomendas. Como não fazia grande sentido, num unboxing, reformulei para: Abertura Surpreendente de Misteriosas Remessas! Ah, também não é isso!

Mais tarde pesquisei e fiquei a saber que significa Resposta Sensorial Autónoma do Meridiano, (ASMR) um fenómeno em que certos sons ou estímulos provocam uma sensação agradável e relaxante no corpo. Fiquei na mesma, só que agora com mais palavras e mais vontade de investigar.

Mas depois de saber o significado lembrei-me dos vídeos de limpeza extrema. Uma casa em estado de sítio, uma esfregona a chiar, água a escorrer... tudo em modo acelerado. Ficava ali colada ao ecrã, fascinada. Paz em forma de vinagre e bicarbonato, ou com lixívia, talvez.

Foi aí que percebi: afinal já via ASMR. Só não lhe chamava assim.
O som da escova no cabelo, a gata a ronronar, um café a ser servido. Relaxam. Mas com limites. Sussurros? Não. Unhas? Muito menos. E que ninguém me venha dizer que o barulho da boca a mastigar é agradável.

A verdade é que nem vejo os vídeos todos. Como toda a gente, salto para o fim. Está provado, pelo menos no meu caso, que as pessoas só estão realmente atentas nos primeiros segundos e no final. É o que vejo através do gráfico de visualizações do Instagram que mais parece um eletrocardiograma: começa em alta, morre lentamente, e ressuscita com força nos últimos segundos. É bonito de ver. Uma espécie de vida e morte digital.

No fundo, o ASMR é como aquele género de vídeos que dizemos que não gostamos… mas depois vemos.

Nem que seja só o início.
Ou o fim.

 

Sim, leste bem. Não gosto de ver unboxings. Aqueles vídeos longos, filmados com todo o cuidado e entusiasmo, em que alguém vai abrindo uma caixa como se fosse um baú do tesouro, deixam-me… ansiosa. E não daquela ansiedade boa, de “o que virá aí?”, mas da outra — a do desconforto crescente, do querer que aquilo acabe depressa, da impaciência pura.

Já tentaste ver um unboxing inteiro? Com atenção?
Suspense eterno.
Fita-cola infinita.
O envelope a escorregar da mesa porque a pessoa só está a usar uma mão.
Aqueles minutos em silêncio, só com o som do plástico ou do cartão a ceder lentamente...
E o inevitável:
“Ai, será que é o que eu estou a pensar?”
E eu só a pensar:
“Anda lá com isso, por amor da santa.”

A verdade é esta: unboxings não me relaxam, não me entretêm e, definitivamente, não me inspiram a comprar nada. Só me fazem querer fechar o vídeo ou avançar diretamente para os últimos segundos, para ver o que afinal estava dentro da caixa.

Talvez isto pareça estranho, sobretudo num universo como o do bookstagram, onde o conteúdo visual e os momentos de partilha são tão valorizados. E onde abrir uma encomenda parece quase um ritual — uma cerimónia de boas-vindas ao livro novo, à colaboração da editora, à compra sonhada.

Mas não consigo. O ritmo lento, os gestos minuciosos, a expectativa verbalizada em cada suspiro... tudo isso me tira do sério. Talvez seja a minha impaciência a falar mais alto. Ou talvez seja apenas mais um lembrete de que nem toda a gente tem de gostar das mesmas coisas — mesmo dentro de comunidades com interesses tão semelhantes.

Se és do time “unboxings são terapêuticos”, continua. Vive esse momento. Aproveita-o. Mas se, como eu, sentes um ligeiro colapso nervoso ao som do rasgar (lento, muito lento) de um envelope... estamos juntas.

Nem tudo no bookstagram tem de ser igual. Nem todos os formatos são para toda a gente. E está tudo bem não gostar do que “toda a gente” parece gostar. Há espaço para sermos diferentes. Até nas confissões impopulares.

E tu? És fã de unboxings ou também ficas a torcer para que passem depressa? Conta-me tudo nos comentários!

 

Penso que tenho tudo controlado. Juro. Já não me perco nas feiras de antiguidades (não porque ganhei juízo, mas porque os livros antigos têm letra de formiga e espaçamento tão apertado que até os meus olhos se revoltam). Agora, faço compras mais “inteligentes” — cof cof — na Tradestories: livros quase novos, preços simpáticos e zero culpa. Até parece que estou a poupar!

Mas às vezes lembro-me da Rebecca Bloomwood, a protagonista de "Louca por compras ", que li há muito tempo, e penso… será que sou assim tão diferente? Ela comprava porque estava triste, porque estava feliz, porque estava viva. Eu? Bem… também. 

A verdade é que já acumulei livros por impulso, que acabaram a apanhar pó na estante - lindos, mas ignorados. Hoje tento fazer melhores escolhas: menos drama, mais leituras reais. Se o livro entra em casa, é para ser lido (ou pelo menos é esse o plano… mais ou menos… vá, talvez no próximo ano).

E tu? Também tens uma Rebecca interior que adora o cheirinho a livro novo… ou és daquelas que só compra o que vai ler?

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Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Expresso_Paris-Granville

Depois de terminar a leitura de O Expresso de Paris, fiquei a pensar na imagem com que a autora nos presenteia no final — uma locomotiva a atravessar uma estação, a destruir uma parede e a ficar pendurada sobre a rua, como se o tempo tivesse parado ali, naquele segundo. A autora oferece-nos alguns pormenores históricos nas últimas páginas, é verdade, mas confesso: sou curiosa. E aquela fotografia, tão real, tão absurda, tão assustadora, não me saiu da cabeça. Fui investigar.

O acidente aconteceu a 22 de outubro de 1895, na estação de Montparnasse, em Paris. Um comboio vinha de Granville com um ligeiro atraso. O maquinista, ansioso por compensar os minutos perdidos, acelerou demasiado. Ao chegar à estação, não conseguiu travar. A composição passou pela plataforma, rompeu as barreiras de segurança, atravessou a parede e... caiu. Literalmente. A locomotiva número 721 ficou pendurada na fachada do edifício e caiu de uma altura de cerca de 10 metros até à rua, matando uma única pessoa: uma senhora que vendia jornais na via pública, no pior lugar possível, no pior momento possível. A fotografia do desastre tornou-se famosa — reproduzida em jornais, postais e até em obras de arte. Foi retirada com recurso a um guincho e à força de 14 homens. Um episódio tão surreal que parece ficção, mas foi real. E tornou-se símbolo de um tempo em que o progresso era veloz, mas nem sempre seguro.

É fascinante ver como um romance pode abrir caminho à curiosidade, ao espanto e à descoberta. E como uma imagem, mesmo antiga, mesmo a preto e branco, diz tanto sem palavras que nos prende e torna impossível ignorar. Cada história guarda um fragmento do mundo, uma verdade que só se revela a quem tem a paciência de ir além do visível. E é nessa busca que a leitura se torna uma viagem sem fim.


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