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Opinião: Esta história incrível, linda e invulgar, revela um grande conhecimento da natureza, e é fruto da experiência de Delia Owens enquanto zoóloga e cientista da vida selvagem, em África. A autora, habituada a escrever para revistas da especialidade, designadamente na área de ecologia e vida selvagem, conseguiu surpreender-me neste seu romance de estreia. A sua escrita é fluída e ritmada, e transmite uma calma visual e uma melancolia que se adequa ao espaço envolvente. E foi com essa leveza de espírito que encetei a leitura do primeiro capítulo, que descreve uma manhã de agosto quente, em que estava tudo invulgarmente silencioso, até que se ouve a porta da cabana a bater, e Kia, com seis anos de idade, vê a mãe sair com os sapatos altos de imitação de crocodilo e a mala azul na mão.

Kya é a mais nova de cinco irmãos, vive com os pais numa cabana tosca no pantanal, perto de Barkley Cove, uma pequena cidade fictícia da Carolina do Norte, mas aos poucos, a mãe, os irmãos e, por fim, o próprio pai, vão saindo e partindo deixando a pequena Kia para trás.

“E finalmente, num momento inesperado, a dor que sentia no coração desapareceu como água na areia. Continuava presente, mas a grande profundidade. Kya poisou a mão sobre a terra viva e morna, e o pantanal passou a ser a sua mãe”

Para Kia o pantanal é tudo a partir do momento que é abandonada e "ninguém" quer saber dela. Ela aprende a observar com atenção tudo o que a rodeia e torna-se desconfiada, ou um verdadeiro “bichinho do mato, preferindo estar numa cabana desolada no pântano e longe do contato de qualquer ser humano. Kia irá crescer sozinha, na companhia das suas amigas gaivotas, e do seu amigo Tate, que a ensina a ler.

“Talvez fosse uma forma de comunicar, uma forma de expressar as suas emoções a alguém que não apenas as gaivotas, para dar um destino às suas palavras”.

Este livro, possui descrições que revelam toda beleza natural do pântano e maravilha-nos com as várias espécies que aí habitam - numa verdadeira ode à natureza em que prevalece a lei do mais forte no recesso esconso do próprio ser humano. E será com este pano de fundo que o ritmo de escrita da autora nos vai fornecendo uma visão quase cinematográfica, quer da natureza selvagem, quer da natureza humana, contribuindo para que, enquanto leitora, saboreasse cada imagem com deleite. Este é, sem dúvida, o melhor livro que li este ano. Adorei cada página e aconselho vivamente a leitura.

 

Classificação: 5/5*

 

livro oferecido pela Porto Editora para opinião

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A minha opinião: Clare Mackintosh trabalhou doze anos na polícia, alguns deles no Departamento de Investigação Criminal, porém, abandonou essa carreira para se dedicar ao jornalismo e à escrita. E ainda bem que assim foi porque agora podemos ler os seus livros, os quais, provavelmente, serão inspirados em algum dos casos que investigou. Curiosos? Eu fiquei.

No livro, a história é contada sob várias perspetivas; uma delas, a de alguém que não percebemos se morreu, as outras duas, são identificadas como sendo a de Anna Johnson e a de Murray Mackenzie, um polícia aposentado. Anna é uma jovem mãe e sente saudades dos pais, os quais, ao que tudo indica, se suicidaram no mesmo sítio, com um intervalo de 7 meses entre eles. Primeiro o pai, depois a mãe. Anna não consegue compreender e sente que foi abandonada pela mãe quando mais precisava dela. Eis senão quando ela recebe um postal de aniversário com a mensagem «Suícidio? Pensa melhor» e decide ir à polícia. 

Enquanto leitora senti-me atraída pela sinopse, mas não estava nada à espera de que o ritmo da investigação fosse lento e que só surgissem novidades a mais de metade do livro. Não obstante, a escrita é simples, a leitura é agradável e tudo flui com naturalidade, pelo que o desenrolar dos acontecimentos em nada perturbou a minha leitura. Curiosamente, constatei que são fornecidos muitos pormenores que nada têm a ver com a investigação criminal e que se relacionam com a maternidade recente de Anna e com a saúde mental da esposa do polícia, Murray. Confesso que não percebi a importância desses detalhes para a história em si, se bem que permitem o adensamento ao nível da caraterização psicológica destas duas personagens. A autora entendeu que isso era relevante e resolveu realçar aspetos talvez como forma de desviar a atenção do leitor.

O que não será tão linear quanto isso, nesta história, são as mentiras. Os mentirosos têm tendência a acrescentar factos e situações e acabam, no final de contas, por ser descobertos. Basta um pequeno pormenor para se descobrir toda uma história. Mas, no livro, isso não acontece. Fui iludida pela autora, quando aparentemente tudo se resolve, e surpreendida pela seu engenho quando conseguiu acrescentar uma mentira a outra mentira. E foi precisamente isso que, na minha opinão, tornou tudo tão interessante ao ponto de já não conseguir parar de ler até ao fim. 

"Deixa-me mentir" parte de uma premissa simples [um suicídio/homicídio] para entrar em algo bem mais arrojado e interessante. A história lê-se rapidamente, mas é um intricado novelo, em que puxamos um fio e este vai-se desenrolando aos poucos, muito devagarinho, podendo, num ápice, dar uma grande reviravolta. Se julgam que já não conseguem ser surpreendidos, pensem melhor. Leiam, porque vale a pena. Gostei muito.

 

Classificação: 4/5*

 

oferecido pela editora cultura para opinião

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A minha opinião: Clara Sánchez foi professora de literatura, colaboradora do jornal El País e publicou o seu primeiro livro em 1989. Em 2000 recebeu o Prémio Nadal, o prémio mais antigo de Espanha, pelo romance “Lo que esconde tu nombre”, ou, na versão portuguesa, “Os Monstros Também Amam”.  

Este livro é um claro exemplo de que nada o que parece é - uma alusão à vida, à morte e aos nossos medos mais secretos, aqueles que se encontram aprisionados (ou não) nas nossas mentes. Esse facto leva-me a deduzir que o arame farpado, que surge na capa, não estará ali por mero acaso. Toda a realidade é apenas o que nós procuramos ver e por detrás dela escondem-se até os mais ignóbeis criminosos (os quais já deixaram de existir na face da terra, espero).  

"A solidão também é liberdade"

"Na minha balança, o ódio pesava muito, mas, graças a Deus, o amor também pesava; embora, lamentavelmente, e tenho de o confessar, o ódio tivesse roubado muito espaço ao amor".

"A inocência era um milagre mais frágil do que a neve"

No que diz respeito à história, os dois personagens principais, que vão, alternadamente, narrando os acontecimentos, são totalmente opostos. Temos Júlian, octogenário e doente, que viaja de Buenos Aires para El Tosalet, em Alicante, após receber uma carta do seu amigo, Salva, na qual relata que aí se encontra um casal de noruegueses nazis. Ambos estiveram no campo de concentração Mauthausen e dedicaram-se à caça de oficiais nazis, no pós guerra. Sandra, jovem e grávida, deixou o namorado, Santi, para ficar sozinha na casa da irmã a pensar na sua vida e, após se sentir mal na praia, ela é socorrida pelo tal casal de noruegueses de que Júlian anda à procura. A certa altura conhecem-se e esta dupla irá investigar esse casal, o Fred e a Karin, surgindo ainda mais figuras ligadas a esse passado e às atrocidades, eles que “vivem, e bem que vivem”. A certa altura também é explorada a possibilidade de existir um elixir da juventude, um segredo que os nazis sempre procuraram e que Alice esconde.

Em poucas palavras é o que se nos oferece revelar sobre o enredo. A destacar a relação de amizade entre Júlian e Sandra como uma amizade improvável entre quem teve a experiência de passar pelos campos de concentração e quer justiça e quem parece ingénua e algo superficial, especialmente quando pensa no dinheiro e na possibilidade de vir a herdar os bens do casal que a acolhe, sem descortinar as segundas intenções daqueles. Na realidade sabemos que muitos dos criminosos nazis se esconderam e viveram até à velhice sem que tenham sido punidos pelos seus atos atrozes contra seres humanos. E estou-me a lembrar, por exemplo, do Anjo da Morte, o nazista e médico Joseph Mengele, que fez experiências médicas hediondas e que, segundo consta, após a guerra, viveu na Argentina, no Paraguai e no Brasil.

Houve alturas que não consegui parar de ler e, talvez por procurar que ninguém saisse impune, a única coisa que me desapontou foi mesmo o final. É que tenho um sentido de justiça muito apurado, entendem, embora saiba de antemão que esse sentimento não se coaduna com a prática corrente.

Em suma, quem procura um thriller não se irá rever nesta história, não é disso que se trata, mas o leitor mais atento descobrirá que vale a pena ler (e pensar) sobre a forma como viveram os nazis no pós-guerra. Fala-se muito do holocausto. Pouco no que se passou a seguir. E esta história revela um pouco dessa realidade. Mas mais importante ainda é a história de uma amizade improvável forjada por ironia do destino; muito bem escrita e diferente do habitual. Eu adorei e recomendo.

 

Classificação: 4,5 /5*

 

 

livro oferecido pela matéria prima edições para opinião

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Opinião: Desde o Crime e Castigo, de Doestoievski, que fiquei com vontade de conhecer autores russos e de descobrir um pouco mais sobre cada um. Antes de avançar para um autor preferido, espero conseguir ter uma ideia sobre a forma como cada um escreve e como abordam alguns temas que prometem dar que pensar.

E foi isso mesmo o que aconteceu com Pais e Filhos, um romance sobre o conflito de gerações. De um lado, temos o Arkádi e o seu amigo Bazárov, jovem estudante de medicina, que nega tudo, acreditando apenas na ciência; do outro lado, os pais, conservadores e tradicionais, como, por exemplo, Nikolai Pietróvitch, pai de Arkádi, que vive da exploração agrícola e do trabalho dos camponeses (mujiques), usando métodos pouco eficazes e já ultrapassados.

Portanto, o conflito instala-se assim que Bazárov entra em cena, já que as suas opiniãos e personalidade chocam a família tradicional Pietróvitch, especialmente Pavel, irmão de Nikolai, que o detesta. Mas, nestes dois pontos antipoidais da história, o personagem Arkádi, sob a influência de Bazarov, possui, a meu ver, opiniões mais moderadas. 

Neste livro, existem ainda outros personagens, porém, destaco o que mais me impressionou:  Bazárov e  seu pensamento niilista, uma doutrina filosófica que atinge a literatura, a arte, a ética e a moral. Ele é o tipo personagem que choca: é frio, calculista, detesta a vida do campo e os camponeses, e não demonstra sentimentos por ninguém (exceto, talvez, por Anna), nem respeita os próprios pais.

Devo confessar que, a determinado ponto da história, o niilismo vincado de Bazárov recordou-me Camus e o seu existencialismo. Perante tais interpretações da realidade, nada faz sentido, nem a vida nem a morte, e tudo é permitido (Isto sou eu a divagar, portanto, vale o que vale).

Pais e Filhos é de rápida leitura e com um final que surpreende (a mim supreendeu, sem dúvida), o que veio confirmar a ideia de que os autores russos possuem uma habilidade invejável ao nível da escrita, bem como na forma como contam as suas histórias,continuando, assim, a desafiar, ainda hoje, os leitores. 

Classificação: 4/5*

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Opinião: Este livro suscitou-me de imediato a atenção, porque a capa se destaca em termos de design gráfico (como podem ver na fotografia) e porque tenho lido alguns autores suecos que me brindaram com histórias de pôr os nervos em franja - o que adoro, devo confessar.

Nicklas Natt Och Dag, neste livro de estreia, recebeu um prémio da Academia Sueca de Escritores de Crime e recebeu vários elogios por esse feito. Num deles, o de Erik Axl Sund, é referido que se trata de «Um thriller histórico sem paralelo e de grande qualidade literária. É cru, elegante, comovente e extremamente cativante até à última página». Existem outros, mas acho que este comentário resume muito bem todas as qualidades do livro 1793.

Quando iniciei a leitura, estranhei logo o facto de a polícia parecer actual, com relatórios e comissários, o que me deixou um pouco de pé atrás no que ao rigor histórico diz respeito. Não obstante essa “ligeireza” histórica, acabei por gostar da narrativa  sem quaisquer subterfúgios.

Mas vamos à história. Em Estocolmo, no Outono de 1793, um cadáver flutua no lago Fatburen. Dois pequenos vagabundos dão o alerta. E o guarda Mickel Cardell, sem o braço esquerdo, despe o casaco com dificuldade e nada em direção ao que julga ser uma carcaça de um animal. Mas então vê o corpo desfigurado, com a duas órbitas oculares vazias e, na boca, não vê um único dente. Entra depois em cena Cecil Winge, advogado, que trabalha com a polícia, que irá trabalhar no caso com o guarda Cardell e os dois irão procurar o assassino, começando por tentar descobrir qual a identidade do homem desfigurado e desmembrado. Para Winge é urgente encontrar esse assassino cruel, uma vez que está doente e sabe que não viverá muito mais tempo.

«Winge combate a morte com a mesma bússola que o guiou toda a vida – a razão. Esta diz-lhe que todos temos de morrer e que todos estamos a morrer. Ajuda. Mas, quando os suores nocturnos chegam e a mente vagueia livremente, é a sua morte em particular que o atormenta, não a ideia de morte em geral. Contempla todos os pormenores. A infecção irá espalhar-se pelas articulações e pelo esqueleto, como o que acontece a muitos dos que sofrem desta doença? Irá morrer no sono ou em agonia e paroxismo? Que tormentos sofrerá? Quando mais nada ajuda, tenta convencer-se de que a maior parte de si morreu da última vez que viu a mulher. Mas é um fraco consolo quando a parte de si que ainda vive é aquela que consegue sentir dor».

 

Winge, que é justo, racional e inteligente, bebe para esquecer. Achei impressionante a forma como os personagens masculinos tentam resolver os problemas recorrendo à bebida, mas, no século XVIII, era um hábito muito comum.  Penso que seria uma forma de sobreviverem à realidade, à miséria e às injustiças e agruras da vida. Curiosamente, Kristofer Blix é um cobarde que, surpresa, também bebe, e nós vamos ficar a conhecer a sua história através de cartas que ele escreve à sua irmã, já falecida. Uma narrativa diferente da anterior, mas que resultou muito bem, uma vez que aí é relatada toda a vida deste personagem.

Depois de ter ultrapassado a reacção de estranheza inicial, comecei a questionar, ainda, o facto de este livro não ter a presença de uma personagem feminina forte e corajosa. De facto, até à terceira parte (o livro tem quatro partes), apenas é feita uma breve menção à mulher do Winge e à prostituta Johanna, sendo que, quando surge a Anna Stina, quase a meio de livro, esta personagem feminina introduz um novo folgo ao enredo. Ela é surpreendente e muito diferente dos outros personagens, o que torna tudo mais interessante.

No livro, 1973, existem muito personagens, os quais vão surgindo e desaparecendo de seguida. Mickel Cardell, Cecil Winge, Kristofer Blix e Anna Stina, são os que se destacam e, embora, no decurso da história, tenha gostado mais de uns do que outros, todos tiveram um final que foi do meu agrado.

O escritor conseguiu dar uma nova voz à ficção histórica. A narrativa é dura, crua e sem qualquer tipo de enfeites linguísticos. As personagens são interessantes e bem desenvolvidas. E a história é intensa, invulgar e muito bem escrita. Gostei muito. Vale a pena ler.

Classificação: 5/5*

Este livro foi oferecido pela Editora Suma para opinião.

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A Mafalda recomendou-me este livro e agradeço-lhe imenso por isso. Obrigada, Mafalda, este livro deixo-me com vontade de ler mais desta autora, embora não existam ainda muito livros dela traduzidos em Portugal (e não me apetece lê-los em inglês:))

 

Opinião: Vou começar por vos deixar uma pequena nota em relação à obra, uma vez que não se trata de uma biografia e sim de uma obra de ficção baseada em factos reais. Isto deixou-me muito surpreendida, porque, quando leio um livro, não procuro saber a vida do autor. Aliás, não o faço para não ser influenciada. Só depois, e antes de escrever a minhas ideias, é que que faço alguma pesquisa. Eis senão quando me deparo com a informação de que este romance é baseado na história da avó de autora, conforme se comprova através da dedicatória:

Para Blanche Morgenstern, a «filha do coveiro».

É verdade que passei os olhos pela dedicatória, mas não prestei muita atenção, pois não entendi o seu significado. Mas vamos aos factos reais nesta história.

 

O pai de Joyce Carol Oates, já com 70 anos, resolveu contar o segredo de família relativamente ao avô Morgenstern. Este, depois de ter morto a mulher, matou-se com um tiro. A filha, Blanche Morgenstern, sobreviveu. A autora além de desconhecer esta história também não sabia que a avó era de ascendência judia. 

Nada mais é biográfico, o resto é imaginação de Oates, segundo julgo.

 

Portanto, o romance inicia-se em 1959 com a jovem mãe, Rebeca Schwart, que trabalha numa fábrica. No regresso a casa, num percurso que faz diariamente junto a um canal, ela é abordada por um homem que a confunde com Hazel Jones. Rebeca desconfia e consegue fugir ilesa.

No capítulo seguinte, a história volta atrás, para 1936, ano em que, depois da fuga da Alemanha nazi, Anna, a mãe de Rebeca, dá à luz, no porto de Nova Iorque, no meio da imundice. O pai, Jacob, antigo professor de matemática, é forçado a aceitar o emprego de Coveiro em Milburn, facto que nunca irá aceitar e que o levará a sentir-se discriminado e a um estado de verdadeira paranoia. Passam então a morar numa casa velha no interior do cemitério. Jacob transforma-se num tirano e isola a família. Proíbe a mulher de falar alemão e os filhos Herschel e Gus de terem amigos. Mas quando estes saiem de casa o pai mata Anna e suicida-se de seguida. Rebeca sai ilesa, embora assista a toda a cena.  A sua professora Rose Lutter toma conta dela, por ser menor, porém, esta sai de casa sem qualquer consideração ou atenção pela tutora. É então que conhece Niles Tignor e cometerá o maior erro da sua vida. 

 

Senti muita apreensão pelo futuro de Rebeca. Muitas das vezes não concordei com as suas decisões, embora ela lute por aquilo que acredita. Acho que é uma personagem muito bem construída, percebemos tudo o que se passa com ela, exceto mais no final da história em que parece que se transforma numa pessoa hermética, cheia de segredos. Desagradou-me esta faceta dela e esperei que, com todas as desgraças que ocorreram, no final se revelasse uma pessoa melhor. Na minha opinião, isso não aconteceu. Será que o dinheiro passou a ser mais importante?!

 

Posto isto, neste livro, um retrato cru da sociedade americana, o tema predominante é a violência, psicológica e física. É um retrato duro e visceral. A escrita, por vezes, também é dura:

A história não tem existência. Tudo o que existe são indivíduos, e, destes, só existem momentos singulares separados uns dos outros, como vértebras partidas.

 

No barco, tínhamos de comer o que nos davam. Comida estragada com bolor e baratas. Pegava nelas e esmagava-as com o pé e continuava a comer, a fome era muita. Ou isso ou morrer à fome. Quando atracámos, já tinhamos as tripas carcomidas e toda a gente cagava sangue e pus (...)

 

 

 

Numa linguagem simples, direta e realista, Joyce Carol Oates entrega-nos uma imagem de Rebeca (baseada na sua avó Blanche) como se tratasse do seu testemunho real, não deixando de lado nada, nem os seus defeitos. 

Gostei muito da escrita, com frases curtas, e da história inquietante. Recomendo.

 

Classificação: 4/5* (Só não dou 5* por culpa da Rebeca. O dinheiro muda muito as pessoas e gostaria de que a mensagem fosse outra).

 

 

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ResumoMais do que querer provar que a vida continua depois da morte, o objectivo é explorar como se estabelece a comunicação ente os vivos e os mortos. Este livro mudou a vida do autor. Talvez também mude a sua.

Opinião: Este livro é sobre um tema que muitos procuram esquecer e poucos ousam refletir, não sei se por desconhecimento ou se por receio. Como leitora ávida de assuntos relacionados com a religião e de histórias sobre quem comunica com o além, ou não tivesse lido Alan Kardec e outros livros que abordam o tema da espiritualidade, embarquei, com alguma bagagem, numa experiência única. 

Lê-lo é como dar pequenos passos e percorrer um caminho de espanto perante as experiências de vida dos médiuns, os sentimentos, impressões e imagens que lhes são transmitidas, a eles, sem que, no caso, tenham sido feito leituras corporais ou fornecidas quaisquer pistas.

O autor, Stéphane Allix, deixou de ser repórter de guerra após a morte do irmão num acidente de carro. Cerca de 12 anos depois, coloca cinco objetos no caixão do pai e, um ano depois, interrogará seis médiuns de forma a que o pai comunique com ele e lhe diga quais são.

"Cada um dos seis médiuns descreveu-me a mesma pessoa, porque esta pessoa está viva (…). Estamos eternamente ligados".

Este teste ou experiência revela-se um verdadeiro jogo de pictonary, uma vez que os médiuns desconhecem completamente qual o objetivo, possuem pouca informação e, nas sessões, aparecem o avô, o irmão e um irmão do avô, que é desconhecido na família do autor.  

Já todos sentimos arrepios inexplicáveis, uma sensação que nos deixa desconfortáveis. Geralmente, o assunto da vida depois da morte poderá ter esse efeito. Mas já pensaram que não sabemos as respostas a todas as perguntas nem o que estamos a fazer neste planeta? Não gostariam de saber? As nossas crenças, ou a ausência delas, não impedem que cada um de nós desenvolva a capacidade para percecionar o que permanece inacessível aos nossos sentidos?  A esta última pergunta respondo com um sim. Vivemos presos ao que acreditamos e ao que nos foi transmitido.

Nesta leitura, gostei muito da médium Christelle, a qual conseguiu conjugar o seu dom com a sua profissão de auxiliar de enfermagem. Ela ouve os mortos e ajuda-os, indo ao encontro do que eles lhe pedem para fazer e ou transmitir. Fascinou-me conhecer a vida destes seis médiuns, desde o momento em que tomam consciência das suas capacidades, geralmente em crianças, até a altura em que abandonam as suas profissões (com exceção da Christelle) para se dedicarem inteiramente à sua missão.

Depois de ter lido vários livros sobre o tema sinto que cada vez mais não podemos ignorar algo que faz parte da nossa essência. No entanto, A Prova não fornece detalhes sobre o Além. Fala antes dos espíritos, daqueles que geralmente permanecem num determinado lugar junto dos vivos, enquanto almas que precisam de ajuda, de luz e de amor. E relata  bem a necessidade de compreender melhor a partida dos que nos são queridos.

"Desde a morte do meu irmão – seu filho -, o meu pai pensava nisso constantemente e oscilava entre esperança e resignação. Não dizia muito, mas, durante os momentos que falávamos, sentia o sofrimento, a dor e a tristeza que a dúvida que o habitava a cada segundo representava. Parecia prisioneiro, dilacerado entre sensações contrárias. E os livros cuja leitura eu lhe sugeria não demonstravam fazer vacilar de forma duradoura a que ele chamava, com uma triste coragem, a «muralha imensa da bruma»".

Este livro ajuda a libertarem-se das amarras do materialismo e da «muralha imensa da bruma», e a compreenderem a capacidade de comunicação dos mortos, bem como a importância da mediunidade no processo de luto. 

Quer sejam meros curiosos ou realmente interessados no tema, recomendo esta leitura para que não sejam enganados, nem apanhados desprevenidos. A sério. Este livro é fascinante.

 

Classificação: 5/5*

Livro oferecido pelo clube do autor para opinião,

 

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SINOPSE: Aqui

OPINIÃO: Este livro tem tudo para nos conquistar de imediato, exceto a forma como está escrito. Para mim, foi difícil acompanhar o desenvolvimento desta história, muito por culpa da escrita do autor, com parágrafos gigantescos, com frases longas e, por vezes, com ideias contraditórias.

Mas já lá vamos.

A história começa de uma forma que nos choca, pois a jovem Teresa, que acaba de regressar da lua de mel, mata-se com um tiro no coração durante um almoço de família. Na verdade, foi este segredo que agarrou e fez com que não desistisse logo nas primeiras 30 páginas, tal como já havia acontecido com outro livro do mesmo autor, "Os Enamoramentos".

Depois da cena inicial, aparece Juan, sobrinho de Teresa, também jovem, casado, e tradutor de profissão. Enquanto Luísa, a sua esposa, está doente na cama de hotel, Juan observa pela janela uma mulher que o confunde com outro homem. Ao mesmo tempo que descreve o que se passa numa rua, em Havana, verifica como está Luísa e vai partilhando os seus pensamentos, receios e pressentimentos em relação ao seu próprio casamento.  

Tal como uma doença por vezes altera o nosso estado ao ponto de nos obrigar a interromper tudo e a ficar de cama durante dias a fio e a ver o mundo apenas a partir da almofada, o meu casamento veio interromper os meus hábitos e as minhas convições e também, o que é mais decisivo, também a minha forma de ver o mundo.

 

Juan sente-se perseguido pelos próprios pensamentos. Enquanto tradutor está habituado a observar e a refletir sobre o que ouve, especialmente se for na língua que entenda. Mas Juan, a meu ver, pensa demasiado.

 

O que se dá é idêntico ao que não se dá, o que desejamos ou deixamos passar, idêntico ao que tomamos e agarramos , o que vivenciamos, idêntico ao que não experimentamos e, não obstante levamos a vida e damos a vida a escolher, rejeitar e seleccionar, a traçar uma linha que separa as coisas que são idênticas e faça a nossa história uma história única que possamos recordar e se possa contar.

 

Esta e outras frases demasiado longas foram, na minha opinião, o verdadeiro entrave para que este livro não proporcionasse uma leitura mais aprazível. No entanto, gostei especialmente da utilização da citação da obra de Shakespeare [ "As minhas mãos são da tua cor; mas envergonho-me de trazer em mim um coração tão branco"]  no título, bem como desta constituir um elo de ligação entre o início e o fim da história.

 

Um livro para se gostar (ou odiar), mas que merece ser lido atendendo ao estilo original narrativo a que chamarei de "pensamentos em modo saramago".

 

Assim sendo, deixo-vos esta frase:

Não há nada que não se possa contar, até o que não queremos saber e não perguntamos e, não obstante, nos dizem e nós ouvimos.

 

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

(lê aqui as primeiras páginas)

 

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Os apreciadores da beleza, da cor e da estética, adoram rodear-se de obras de pintores famosos em cada canto da casa. No seu mundo, o da arte, é importante  o conhecimento de todos os traços, pormenores, pinceladas e técnicas do artista. Ademais, os apreciadores e ou compradores, geralmente, têm um sentido apurado e, por vezes, encontram obras em sítios inesperadamente fáceis. Apreciar a Arte é uma arte, passo o pleonasmo, e, sabendo que a beleza tem um preço, há quem esteja disposto a pagar qualquer preço por uma obra ainda que a mesma tenha sido furtada de um Museu ou até de uma Igreja.

 

Sabendo que existe esse mundo paralelo do crime, o autor inspirou-se em alguns factos verídicos, como o roubo da Mona Lisa, no Louvre, em 1911, e a história d' A Última Ceia começa com o roubo da cópia da A Última Ceia  [ que corresponde à pintura original sobre a parede realizada por Leonardo da Vinci,  entre 1494 a 1498, no refeitório do Convento de Santa Maria Delle Grazie, em Milão, Itália].

O ladrão deixa uma mensagem "Obrigado pela pobre segurança. Vemo-nos dentro de um ano" e, ainda, um poema muito enigmático.

 

Gostei da premissa da história, mas não apreciei o romance entre a Sofia Conti, uma jovem portuguesa, e Giancarlo Baresi, um italiano de caráter duvidoso, dado que foi, a meu ver, algo precipitado (o facto de, no início, não ter gostado muito desta personagem também não ajudou, claro).
As partes que me suscitaram mais a atenção foram a cena de flagelação com um toque hediondo, do qual não posso falar, e as folhas do diário do professor Catalão, escrito aos oito anos. Pena é que não tenham existido mais páginas do diário, é  que achei simplesmente deliciosas as palavras que estava a aprender e a preocupação em escrever corretamente.

 

Mas refletindo um pouco sobre o final desta história, interrogo-mo se Leonardo da Vinci não terá razão:

Existem três tipos de pessoas: aquelas que veem, aquelas que veem quando lhes é mostrado e aquelas que não veem.

 

Creio que me enquadro no primeiro e segundo tipo de pessoas, porque quando acabo de ler um livro que me intriga volto sempre atrás à procura daquilo que me passou despercebido numa primeira leitura. E foi isso que aconteceu com A Última Ceia, uma vez que fiquei a pensar na divisão da história em: Livro 1 (esboço), Livro 2 (cor) e Livro 3 (Acabamento). Isso intrigou-me porque são as etapas necessárias numa pintura. Porém, só após a leitura é que dei conta de que a maior parte da história se encontra no Livro 2 (cor).  Cor, em sentido figurado, significa disfarce, pretexto, e tenho para mim que foi propositadamente que o autor tratou aí a maior parte da ação e evolução da  história,  a qual serviu para delinear uma personagem que surpreenderá, e muito, no final. Acho que esteve bem disfarçada!

 

De outra forma, se calhar numa interpretação mais verosímil, entendo que o Leonardo Da Vinci se estava a referir à existência de pinturas por baixo dos quadros e que só sabemos atualmente através do recurso a técnicas avançadas. Ou então, se pensarmos que só vemos o que nos é mostrado, estava a chamar à atenção para a existência de objetos bem visíveis nas suas pinturas, como o do nó na toalha da mesa n´A última Ceia, existindo teorias sobre o seu verdadeiro significado. 

 

Considero que este livro proporciona bons momentos e pergunto:

Do que estão à espera para o ler?

 

CLASSIFICAÇÃO:

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Quando era pequena adorava coser a roupa para as minhas bonecas e tinha a secreta aspiração de vir a tornar-me estilista. Eram tempos em que tudo parecia possível de alcançar, mas, a realidade era outra. Nunca aprendi costura a sério, nem tinha jeitinho nenhum para isso. Cheguei a pedir a uma tia, que fazia costura para fora, para  me ensinar. Ela procurava pequenos pedaços de tecido para eu aprender a cozer à máquina, mas não sei porquê aquela porcaria encravava sempre. Embora contrariada, por ser vencida pela agulha apressada da máquina, tive de desistir. Mas com uma agulha na mão lá conseguia fazer vários pontos e até ponto de cruz, o que me entretinha durante horas!

 

Já Sira Quiroga aprende desde cedo (e bem) o que são prespontos, a alinhavar e tudo o que se relaciona com a costura. A sua mãe trabalha no atelier da D. Manuela e é modista. Embora sejam pobres existe uma ligação especial entre mãe e filha.

Sira apercebe-se da riqueza existente nas casa das clientes onde vai fazer as entregas e, ao sentir-se deslumbrada por uma vida boémia e desafogada, irá envolver-se com a pessoa errada. É nesta parte da história que fiquei dececionada com Sira. Julguei que era mais esperta e perspicaz. Julguei que ninguém a conseguiria enganar ou que pelo menos ouvisse a mãe.

 

Repreedeu-me com as censuras mais contudentes que conseguiu trazer à boca. Chamou aos céus, suplicando  a intervenção de todos os santos, e tentou convencer-me com dezenas de argumentos a fazer marcha atrás nos meus propósitos. Quando verificou que nada daquilo servia, sentou-se na cadeira de baloiço ao lado da do meu avô, tapou a cara e pôs-se a chorar.

 

O livro «O tempo entre costuras», de 620 páginas, tem um pouco de história (da guerra civil espanhola e da Segunda Guerra Mundial), locais interessantes, espionagem, personagens bem construídos e momentos de mistério, como este:

 

Um homem. Sozinho. Um homem sozinho cujo rosto não consegui distinguir entre as sombras. Um homem qualquer que nunca me teria chamado a atenção se não tivesse vestida uma gabardina clara com a gola levantada, idêntica à do indivíduo que me seguia havia mais de uma semana. Um homem de gabardina de gola levantada que, a julgar pela direção do seu olhar, mais do que no enredo cinematográfico, estava interessado em mim.

 

 Este livro tem ainda mulheres fortes. As várias personagens femininas são diferentes e interessantes. Gostei da Dolores, da Candelaria, da Jamila, da Rosalinda Fox, da Beatriz Oliveira, de todas elas, porque resistem às adversidades à sua maneira. 

 

CLASSIFICAÇÃO:

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O que é que não gostei, perguntam vocês, para dar 4 estrelas? Eu não gostei do final.

O que foi aquilo?!

 

 

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1974, Alasca.
Uma família decide um novo começo.
O pai, Ernest Allbright regressa da Guerra do Vietnam, mas é um homem diferente.
Com apenas 13 anos, a filha, Leni ou Lenora, está ansiosa por encontrar o seu lugar no mundo.
A mãe, Cora, está disposta a tudo pelo homem que ama, mesmo que isso signifique segui-lo numa aventura no desconhecido. 
 

Kristian Hannah já me consquistou, primeiro com O Rouxinol, agora com esta grande história. As personagens e o cenário estão tão bem construidos que consegui visualizar e sentir tudo.

Na minha humilde opinião, esta capacidade de escrita de Kristin não é fácil de encontrar, uma vez que só alguns conseguem gerar uma envolvência tal que queremos ler tudo de uma assentada. E li - de manhã no carro, antes de ir para o trabalho, depois do almoço, antes de voltar para o trabalho, à tarde, depois de regressar do trabalho, e à noite, depois do jantar feito pelo marido.

Estive totalmente ausente para a vida, alheada de tudo e de todos e, para ser sincera, foi difícil, em certos momentos, deixar o livro fechado. É este o poder das grandes histórias, não acham?

 

É certo que é mais uma história, mas está tão bem contada que demorei algum tempo a pegar noutro livro. Não é que sentisse que precisava de saber mais sobre as personagens, nada disso, apenas fiquei completamente agarrada à Leni. Estive do lado dela, desde os 13 anos até à idade adulta, e entendi todas as dores de crescimento e todos os sentimentos relativamente ao que se passava à sua volta.

 

Leni tinha medo de ficar e tinha medo de sair. Era estranho - estúpido até -, mas muitas vezes sentia-se a única adulta da família, como se fosse o lastro que mantinha o instável barco Albright equilibrado.

 

A Grande Solidão é como chamam ao Alasca, esse lugar que tem tanto de belo como de selvagem e perigoso, e onde as noites não têm fim durante o Inverno.

Sobreviver ao  Inverno é importante e Leni e Cora têm de aprender a viver e a serem fortes, unindo-as o amor incondicional entre mãe e filha. E os verdadeiros amigos alasquianos vão ajudar e trocam bens e alimentos de forma a terem comida suficiente.

 

Este estado, este lugar, não tem igual. É beleza e horror; salvador e destruidor. Aqui, onde a sobrevivência é uma escolha que tem de ser feita e refeita, no lugar mais selvagem da América, na fronteira da civilização, onde a água, em todas as suas formas nos pode matar, aprendemos quem somos. Não quem sonhamos ser, não quem imaginamos ser; não quem fomos criados para ser. Tudo isso será desvastado nos meses de escuridão gelada, quando o gelo nas janelas nos turva a vista, o mundo fica mais pequeno e tropeçamos na verdade da nossa existência. Aprendemos o que devemos fazer para sobreviver.

 

O maior perigo está perto delas e é irritante (muito) e é assustador.

Há paixões que fazem mal.  

Espero que gostem de ler. Histórias como esta são um vício. Que livro, que livro!

Acho que vou querer ler todos os livros desta autora. 

 

 

CLASSIFICAÇÃO:

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Sinopse: Aclamada como uma das maiores obras-primas sobre a temática da morte, esta é a história de Ivan Iliitch, um juiz respeitado que, apercebendo-se da morte próxima, se interroga sobre as suas escolhas, percurso de vida e a mentira em que vive.

 

Opinião: Este livro foi publicado em 1886 e é sobre a morte (e vida) de Ivan Ilitch, um juiz obcecado com o seu trabalho e com a posse de bens materiais [mais concretamente, com uma decoração opulenta da casa]. Parece redutor dizer isto, mas Tolstói soube, através desta história exemplar, demonstrar o que é uma vida de aparências. Nem tudo o que parece é, não é verdade?


E como não tudo é o que parece, o funeral de Ivan Ilitch é o reflexo disso mesmo, uma vez que há quem vá ao funeral e pense apenas no momento em que irá terminar para poder jogar às cartas.

Poderá parecer-vos ainda mais estranho o que vou referir de seguida, mas esta situação fez-me lembrar uma realidade bem próxima. Não sei se já presenciaram, mas nas aldeias há quem vá um funeral só porque fica bem ou porque é melhor ir ver se os familiares do morto estão todos presentes e vestidos de negro da cabeça aos pés ou se os mesmos choram o suficiente. Outros, ficam na rua a conversar e a contar episódios do passado como se estivessem num café.

É triste verificar a falta de consciência e da importância de certos valores na sociedade em pleno século XXI, mas esta é a realidade em muitas localidades deste país pequeno tal como as pessoas que nele vivem (algumas pessoas, claro!).

 

Retomando a história de Ivan Ilitch, ele obtém o sucesso profissional, mas sabemos o que isso acarreta. Os workaholics vivem para o trabalho, mas sofrem com a solidão, certo? Ou nunca pensaram na atualidade desta história? Eu acho que o ser humano continua igual ou até pior.

 

"O médico dizia que os sofrimentos físicos de Ivan Ilitch eram terríveis, e falava verdade; mas os seus sofrimentos morais eram ainda mais horríveis do que as suas dores físicas, e eram eles que sobretudo o torturavam."

 

Este livro é pequeno, mas ao mesmo tempo contem uma grande história e uma grande lição de vida, uma vez que devemos ter sempre presente que a vida deve ser vivida ao máximo e que a ambição e a vaidade não nos levam a lado nenhum.

 

Um livro que recomento e que todos devem ler e reler.

 

 CLASSIFICAÇÃO:

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P.S. Se não concordarem com algo que tenha dito neste texto, podem comentar à vontade, pois a partilha de opiniões é muito importante para mim.

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Opinião: Este livro foi mencionado pela Maria do Rosário no Clube de Leitura Conversas Livrásticas. O tema, se a memória não me falha, era saúde mental. Achei o máximo a descrição da história e fiquei muito curiosa quando a certa altura ouvi que os loucos estavam todos no manicómio. A este propósito, lembro-me da minha professora de filosofia quando lançava a pergunta: Quem são os loucos? Serão todos os outros, aqueles que vivem no manicómio, ou os que ficam de fora?

 

Entretanto, numa ida à biblioteca, trouxe este livrinho que me fez recordar essas aulas de filosofia e uma constante necessidade de questionar o mundo em redor. Por vezes esqueço-me de o fazer. Outras, ouso  refletir bem sobre o que estou a ver ou a ler. Acho que é preciso usar os olhos da alma e não os nossos sentidos, uma vez que estes não conseguem apreender essa dimensão reflexiva.


Resumindo um pouco a história, o Dr. Simão Bacamarte, médico psiquiatra ou alienista, depois de andar pela Europa vai para a cidade de Itaguí, no Brasil, onde acaba por se casar com uma viúva, que não era bonita, mas que lhe poderia vir a dar os filhos que desejava. Algum tempo depois, constroi um manicómio ou asilo na cidade. Chamou-lhe Casa Verde. A obsessão pelo trabalho é tão grande que aos seus olhos todos evidenciam sinais perante os quais o médico resolve internar um a um. Todos os  que se vão cruzando o caminho são objeto de um teste para comprovar a sua teoria (completamente aleatória).

 

"A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente". 

 

Este conto é uma forma muito "lúdica" de abordar um tema sensível: a forma como os médicos analisam os distúrbios psicológicos através das atitudes e comportamentos das pessoas.

 

"Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
- Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e insânia".

 

 

Por outro lado, é utilizada uma dose de ironia na crítica a pessoas oportunistas, com o botânico Crispim Soares, bem como aos próprios políticos, com o barbeiro Porfírio. Numa sociedade de loucos, os poucos que se governam são os que têm interesses próprios (e nem esses serão poupados).

 

O primeiro contato que tive com o escritor foi com o livro D. Casmurro, uma leitura que partilhei convosco aqui. Tive uma boa impressão do autor e firmei a convição de que os seus livros não devem ser lidos "aos bocadinhos".Acho que desta feita aprendi bem a lição, pois li O alienista de uma assentada.

 

Um livro para ler e pensar. Uma alegoria ao ser humano e, sobretudo, ao que ele acredita ser a realidade.

 

CLASSIFICAÇÃO:

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Sinopseaqui.

Opinião: A narrativa é feita por Balram. Ele conta a história da sua vida («A autobiografia dum Indiano Mal Amanhado»). Neste tom irónico e crítico, Balram descreve o seu país, a Índia, e conta que antes de se chamar Balram era Munna. No entanto, Munna significa apenas rapaz, ou seja, quando nasceu os pais não lhe deram um nome. 

Mas afinal que espécie de lugar é aquele em que os pais se esquecem de dar o nome aos filhos?

 

É só na escola que o professor o "batiza" de Balram e eu achei isto táo triste que senti uma enorme compaixão pelo personagem, mas aviso já: não se iludam. 

«O Tigre Branco» contem sete cartas escritas por Balram ao primeiro-ministro Chinês, que visitará a Índia, onde conta a sua história e faz uma crítica social algo arrojada. 

 

A propósito senhor primeiro-ministro: já reparou que os quatro maiores poetas do mundo são todos muçulmanos? E que, apesar disto, todos os muçulmanos com que nos cruzamos são ou analfabetos, ou andam tapados dos pés à cabeça com burcas pretas, ou à procura de prédios para explodir? É um enigma, não lhe parece? Se algum dia conseguir perceber esta gente, então mande-me um e-mail.

 

Nesta sátira, temos: pobreza, ambição, ganância, corrupção, crime, cenas ["nojentas"], desigualdade social e injustiça q.b.. Porém, aquele sentimento de pena que Balram inspira, ao início, vai-se dissipando à medida que a história se desenrola. A própria narrativa começa por ser leve e divertida mas descreve uma realidade "quase medieval", que é o sistema de castas. Vindo do lado pobre, escuro e sujo, Balram quer subir na vida, mas a sua casta, Halwai, tem de vender doces (Cada casta tem um nome que se relaciona com uma profissão) e Balram não quer essa profissão de "pobre" e sim ter uma bela farda e ser motorista (No fundo, quer passar para o lado da luz e da riqueza).

Gostei deste livro porque acho que é uma história que dá para refletir sobre a realidade na Índia e conhecer um pouco mais desse país. 

Gostei ainda porque o livro é pequeno, lê-se rapidamente e não é nada maçudo.

Mas o que mais gostei foi da construção e caraterização psicológica do personagem Balram (Brutal!).

Espero ler mais deste autor.

 

Classificação: 5/5.

 

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Sinopse: Aqui:

 

Opinião: Depois de ler "Quando o Cuco Chama", fiquei curiosa para ler os dois livros seguintes. Infelizmente, na minha Biblioteca, apenas tinham o segundo livro, "O Bicho-da-Seda",  e não me souberam dizer quando vão adquirir o terceiro. 

Li o "Bicho-da-Seda" há vários meses atrás, pelo que resolvi escrever aqui o quanto antes. Lembro-me que a leitura foi compulsiva, dado o entusiamo com que fiquei depois de ler o primeiro. Depois ainda tenho presente que as expetativas eram elevadas.

Cormoran Strike e Robin Ellacott voltaram a preencher os meus serões com uma história de um desaparecimento de um escritor chamado Quine. Quine tinha escrito o romance "Bombyx Mori"(o bicho da seda em latim), que contem informações nada abonatórias de pessoas que lhe são próximas, desde escritores a editores. Quando Quine surge brutalmente assassinado, tudo aponta que os suspeitos serão os que se sentiram "ofendidos" com o livro. E Quine não tem amigos.

Não gostei tanto deste livro como do anterior, uma vez que Cormoram continua a lamentar-se da sua vida, da sua perna e a mencionar o sofrimento. Já a personagem Robin tem um maior destaque, porém, algumas partes do livro tornaram-se um pouco irritantes. Acho que isso aconteceu quando ficamos sem saber se Robin vai ou não terminar o relacionamento com o noivo. Afinal, Robin poderia ser mais decidida e determinada, ou não? Sinceramente, para uma "quase detetive" fugir à verdade (ou ao noivo) não me pareceu uma atitude correta.

Outra coisa que me maçou foi a referência constante ao "Bombyx Mori", que no fundo foi um mau livro. Quine não era bom escritor. Percebo que se fale nele por ser o último romance escrito por Quine, mas não entendo a tão elevada relevência que lhe é dada. Se calhar deveria ter percebido... mas "Bombyx Mori" não me impressionou. 

Por último, há um pormenor que me deixa com "urticária" e que se relaciona com a subtileza com a escritora induz a ideia de um possível romance entre Robin e Cormoram. Funciona nas séries televisivas, mas aqui, please, don´t! 

Estes foram os motivos para não gostar tanto deste livro, mas a escrita é ótima e o final é surpreendente.

Será que vou ler o próximo?

 

Classificação: 4/5

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[Agradeço o enorme privilégio que o autor me concedeu através da generosa oferta do livro]

 

 

Desde miúda que oiço falar de histórias sobre África e lembro-me perfeitamente das conversas do meu pai e do meu tio quando recordam o tempo da guerra colonial e de quando estiveram em Angola e Moçambique. De tanto os ouvir, acho que se agarrou à minha alma o espanto por essa terra de contrastes. E este livro recordou-me um pouco essas histórias e sobretudo esse mundo de mistérios, crenças, cores, cheiros e sons da fauna, que têm tanto de terrível como de maravilhoso.

 

Em "O Perfume da Savana", o autor conta-nos uma história de um grande amor, "um amor incomensurável só comparado à vastidão que o rodeia", numa época em que África era ainda uma colónia portuguesa e em que a falta de chuva afetava (e afeta) a terra, as pessoas e os animais.

 

Para Daniel, não foi o feitiçeiro nem a chuva e sim o destino que lhe trouxe um perfume irresistível na mulher perfeita: Isabel. Ela é casada e tem uma filha, mas só com Daniel descobre o amor, algo que ainda não tinha conhecido antes. 

 

Acompanhei esta história de amor com algum receio, não só pela trama, mas também pelo facto de a ação se desenrolar na savana cheia de vida. À noite ouvem-se os leões, o casquinar das hienas, e de dia veêm-se os leões, os jacarés e as pacaças [que desconhecia].

 

Adorei a envolvência da natureza e da fauna, bem como de todos personagens, incluindo o Dibó, a Clarinha e a Zeza. Ademais, a escrita é cheia de pormenores e proporciona uma "viagem" a um tempo em que "não há televisão, fax, computador, vídeo, DVD, telemóvel, nada". Já se imaginaram no meio da selva sem nenhum tipo de tecnologia? 

 

Eis mais uma história de África que me fica na memória!

 

Classificação: 4/5

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Opinião:Ultimamente, ando sem inspiração e isso reflete-se aqui no blogue. Na realidade, gostaria que os post´s que escrevo fossem diferentes e, de tanto tentar que assim seja, acabo por falhar miseravelmente.

A indecisão é um bicho que come as palavras. Ler deveria bastar-me e as letras não deveriam fugir. Ao contrário, vivo isolada e prisioneira de ideias sem filtros. Vivo e leio. Acordo e sonho. E é este o dualismo que me prende as mãos e que não me deixa  teclar livremente as ideias! Raios.

 

Depois deste desabafo, nada melhor do que falar de um escritor talentoso. A minha disposição melhora consideravelmente sempre que indico a leitura d´" A verdade sobre o caso Harry Quebert", pois é o meu livro preferido de Joël Dicker. Gostei tanto do escritor que resolvi que tinha de ler mais e avancei com "O Livro dos Baltimore" e depois para  "Os Últimos Dias dos Nossos Pais".

 

"Os últimos dias dos nossos pais" é sobre uma história de agentes secretos. Paul-Émile, Pal, é um jovem que decide partir para Londres a fim de ingressar na Resistência. Aí, torna-se membro das Forças Especiais, numa espécie de agente secreto e é impedido de ver o pai, a quem é tão dedicado.

 

Um romance que se passa na Segunda Guerra Mundial e que prima por ser diferente, pois destaca os sentimentos das personagens e as relações de amizade (e amor)  entre eles. Apelando ao que faz de nós seres humanos, o autor revela de forma exímia os defeitos e as qualidades numa época em que o mais pequeno erro pode custar a vida de alguém que é muito próximo.

Classificação: 4/5

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Sinopse:aqui.

Opinião:  Quando soube que a Magda me ia enviar este livro, pelo correio, fiquei em polvorosa. As leis fazem parte do meu trabalho, do meu dia-a-dia e as expetativas eram mais do que muitas. 

 

Então, começando pelo Mike Papantonio, o autor é advogado num dos maiores escritórios de advocacia da América (o Levin Papantónio) e resolveu escrever este livro inspirando-se em factos verídicos. É desse conhecimento que surge a história do advogado Nicholas Deketomis. O primeiro caso é o de Annica, uma jovem de de 19 anos que sofreu um acidente vascular cerebral após tomar uma pílula contracetiva. Inicia-se um medir de forças entre uma grande farmacêutica e um advogado que quer defender a vida de inocentes. Evitar novas vítimas é a sua prioridade máxima, porém terá de lidar com forças poderosas que não olham a meios, os chamados "danos colaterais", para atingir os seus fins lucrativos.


Os julgamentos de crimes (contra a vida, o ambiente e saúde pública) e os meandros do próprio sistema judicial americano são assuntos que me prendem a atenção. Já vi vários filmes (tratando-se do tema ambiente veio-me logo à cabeça o filme «Erin Brokovitch»), já li vários livros com julgamentos (ainda não vos disse que o meu preferido é o «Sete Minutos», de Irving Wallace?) e vou continuar a ver e a ler, mais e mais.
 
No início, referi que as expetativas eram altas. E eram. Porém, ter um termo de comparação também não ajuda - e eleva a fasquia. Esperava ação, muita ação, e debates, arrebatadores, entre a acusação e a defesa. Não esperava, de todo, ficar a saber a facilidade com que, no sistema judicial americano, se iliba alguém da morte de uma pessoa através do descrédito "moral" da testemunha chave, sem direito a novo julgamento.
Lei & Corrupção possui uma escrita simples, algo "cinematográfica", que se lê rapidamente. Eu esperava mais dos personagens e da história, o que não quer dizer que não venham a ler e a gostar (como a Magda ).
 
Classificação: 3/5

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Este é um daqueles livros que ou se gosta ou se detesta, e digo isto porque fiquei com essa percepção depois de ter lido as críticas no goodreads. Mas adiante.

 

Quando requisitei este livro, na biblioteca, não sabia quem era a jornalista Anabela Natário, mas já tinha ouvido falar da história de Diogo Alves, do assassino do Aqueduto das Águas Livres, e da sua cabeça decepada guardada em formol para futuros estudos. Pareceu-me interessante e trouxe-o convencida de que o assunto eram as mortes ocorridas no Aqueduto. Mas Diogo Alves além de assassino era ainda ladrão e aterrorizou Lisboa da primeira metade do século XIX . Ao seu lado, tinha um bando de ladrões que vivam de assaltos, roubos, bebida e mulheres, e a sua amante, a Parreirinha (Gertrudes Maria), que era uma mulher que o apoiava em tudo. 

 

Voltando ao que referi anteriormente, uma das críticas apontadas à escritora no goodreads prende-se com o estilo de escrita da autora, porém, tenho de discordar dessa opinião, uma vez que algumas das expressões são as usadas naquela época. Talvez por já ter lido vários clássicos não estranhei a escrita e a leitura fluiu muito naturalmente.

 

O romance tem mistério e intriga q.b. e a jornalista fez um óptimo trabalho de pesquisa, consultando os jornais da época e os processos judiciais. 

Acho que é um romance histórico fora do habitual e o facto de ser baseado em factos verídicos é a minha cereja no topo do bolo. Eu adorei.

 
 
Classificação: 5/5
 
 

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Começando pelo início, pelo prefácio, Miguel Torga dirige-se ao leitor:

 

São horas de te receber no portaló da minha pequena Arca de Noé. Tens sido de uma constância tão espontânea e tão pura a visitá-la, que é preciso que me liberte do medo de parecer ufano da obra, e venha delicadamente cumprimentar-te uma vez ao menos. Não se pagam gentilezas com descortesias, e eu sou instintivamente grato e correcto (...).

 

És, pois, dono como eu deste livro, e, ao cumprimentar-te à entrada dele, nem pretendo sugerir-te que o leias com a luz da imaginação acesa, nem atrair o teu olhar para a penumbra da sua simbologia. Isso não é comigo, porque nenhuma árvore explica os seus frutos, embora goste que lhos comam.

 

Com estas palavras, Miguel Torga dá a conhecer a Arca de Noé, na qual o leitor irá embarcar. A leitura, essa é da total responsabilidade do leitor que é tão dono do livro como o autor. Vocês concordam?

 

Publicado em 1940, cada um dos catorze contos tem ou um animal ou um humano. Durante a leitura isso deixou-me bastante surpreendida, pois achei que as caraterísticas dos animais estavam bem próximas dos humanos. Já a história da mulher, a Madalena, é tão crua e realista!

 

O conto que mais gostei, tudo por culpa d´ A rapariga do autocarro, foi o do galo Tenório que: "Era um galo, e não cuidasse lá o senhor borra-botas do lado que, por ser novo, lhe havia de andar ao beija-mão toda a vida". Ai, o Tenório, fica na minha memória como sendo uma expressão para mais tarde lançar a alguém desprevenido (ahahah).

 

E vamos às curiosidades. Miguel Torga nasceu em Trás-os-Montes em 12 de Agosto de 1907 com o nome Adolfo Correia da Rocha e, em 1934, adoptou o pseudónimo Miguel Torga. Sabiam que “Torga” é uma urze, uma raiz que sobrevive e contribui para a sobrevivência das gentes nas serras transmontanas? E sabiam que Miguel Torga foi nomeado para o Prémio Nobel da Literatura?

 

Os “Bichos” é um livro secreto e tem feito uma viagem pelas casas e pelos correios deste país, mas espero que tenham gostado desta apresentação e espero ainda não ter revelado muito do seu conteúdo.

 

Classificação: 4/5.





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