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Opinião: Esta história incrível, linda e invulgar, revela um grande conhecimento da natureza, e é fruto da experiência de Delia Owens enquanto zoóloga e cientista da vida selvagem, em África. A autora, habituada a escrever para revistas da especialidade, designadamente na área de ecologia e vida selvagem, conseguiu surpreender-me neste seu romance de estreia. A sua escrita é fluída e ritmada, e transmite uma calma visual e uma melancolia que se adequa ao espaço envolvente. E foi com essa leveza de espírito que encetei a leitura do primeiro capítulo, que descreve uma manhã de agosto quente, em que estava tudo invulgarmente silencioso, até que se ouve a porta da cabana a bater, e Kia, com seis anos de idade, vê a mãe sair com os sapatos altos de imitação de crocodilo e a mala azul na mão.

Kya é a mais nova de cinco irmãos, vive com os pais numa cabana tosca no pantanal, perto de Barkley Cove, uma pequena cidade fictícia da Carolina do Norte, mas aos poucos, a mãe, os irmãos e, por fim, o próprio pai, vão saindo e partindo deixando a pequena Kia para trás.

“E finalmente, num momento inesperado, a dor que sentia no coração desapareceu como água na areia. Continuava presente, mas a grande profundidade. Kya poisou a mão sobre a terra viva e morna, e o pantanal passou a ser a sua mãe”

Para Kia o pantanal é tudo a partir do momento que é abandonada e "ninguém" quer saber dela. Ela aprende a observar com atenção tudo o que a rodeia e torna-se desconfiada, ou um verdadeiro “bichinho do mato, preferindo estar numa cabana desolada no pântano e longe do contato de qualquer ser humano. Kia irá crescer sozinha, na companhia das suas amigas gaivotas, e do seu amigo Tate, que a ensina a ler.

“Talvez fosse uma forma de comunicar, uma forma de expressar as suas emoções a alguém que não apenas as gaivotas, para dar um destino às suas palavras”.

Este livro, possui descrições que revelam toda beleza natural do pântano e maravilha-nos com as várias espécies que aí habitam - numa verdadeira ode à natureza em que prevalece a lei do mais forte no recesso esconso do próprio ser humano. E será com este pano de fundo que o ritmo de escrita da autora nos vai fornecendo uma visão quase cinematográfica, quer da natureza selvagem, quer da natureza humana, contribuindo para que, enquanto leitora, saboreasse cada imagem com deleite. Este é, sem dúvida, o melhor livro que li este ano. Adorei cada página e aconselho vivamente a leitura.

 

Classificação: 5/5*

 

livro oferecido pela Porto Editora para opinião

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A minha opinião: Clare Mackintosh trabalhou doze anos na polícia, alguns deles no Departamento de Investigação Criminal, porém, abandonou essa carreira para se dedicar ao jornalismo e à escrita. E ainda bem que assim foi porque agora podemos ler os seus livros, os quais, provavelmente, serão inspirados em algum dos casos que investigou. Curiosos? Eu fiquei.

No livro, a história é contada sob várias perspetivas; uma delas, a de alguém que não percebemos se morreu, as outras duas, são identificadas como sendo a de Anna Johnson e a de Murray Mackenzie, um polícia aposentado. Anna é uma jovem mãe e sente saudades dos pais, os quais, ao que tudo indica, se suicidaram no mesmo sítio, com um intervalo de 7 meses entre eles. Primeiro o pai, depois a mãe. Anna não consegue compreender e sente que foi abandonada pela mãe quando mais precisava dela. Eis senão quando ela recebe um postal de aniversário com a mensagem «Suícidio? Pensa melhor» e decide ir à polícia. 

Enquanto leitora senti-me atraída pela sinopse, mas não estava nada à espera de que o ritmo da investigação fosse lento e que só surgissem novidades a mais de metade do livro. Não obstante, a escrita é simples, a leitura é agradável e tudo flui com naturalidade, pelo que o desenrolar dos acontecimentos em nada perturbou a minha leitura. Curiosamente, constatei que são fornecidos muitos pormenores que nada têm a ver com a investigação criminal e que se relacionam com a maternidade recente de Anna e com a saúde mental da esposa do polícia, Murray. Confesso que não percebi a importância desses detalhes para a história em si, se bem que permitem o adensamento ao nível da caraterização psicológica destas duas personagens. A autora entendeu que isso era relevante e resolveu realçar aspetos talvez como forma de desviar a atenção do leitor.

O que não será tão linear quanto isso, nesta história, são as mentiras. Os mentirosos têm tendência a acrescentar factos e situações e acabam, no final de contas, por ser descobertos. Basta um pequeno pormenor para se descobrir toda uma história. Mas, no livro, isso não acontece. Fui iludida pela autora, quando aparentemente tudo se resolve, e surpreendida pela seu engenho quando conseguiu acrescentar uma mentira a outra mentira. E foi precisamente isso que, na minha opinão, tornou tudo tão interessante ao ponto de já não conseguir parar de ler até ao fim. 

"Deixa-me mentir" parte de uma premissa simples [um suicídio/homicídio] para entrar em algo bem mais arrojado e interessante. A história lê-se rapidamente, mas é um intricado novelo, em que puxamos um fio e este vai-se desenrolando aos poucos, muito devagarinho, podendo, num ápice, dar uma grande reviravolta. Se julgam que já não conseguem ser surpreendidos, pensem melhor. Leiam, porque vale a pena. Gostei muito.

 

Classificação: 4/5*

 

oferecido pela editora cultura para opinião

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A minha opinião: Clara Sánchez foi professora de literatura, colaboradora do jornal El País e publicou o seu primeiro livro em 1989. Em 2000 recebeu o Prémio Nadal, o prémio mais antigo de Espanha, pelo romance “Lo que esconde tu nombre”, ou, na versão portuguesa, “Os Monstros Também Amam”.  

Este livro é um claro exemplo de que nada o que parece é - uma alusão à vida, à morte e aos nossos medos mais secretos, aqueles que se encontram aprisionados (ou não) nas nossas mentes. Esse facto leva-me a deduzir que o arame farpado, que surge na capa, não estará ali por mero acaso. Toda a realidade é apenas o que nós procuramos ver e por detrás dela escondem-se até os mais ignóbeis criminosos (os quais já deixaram de existir na face da terra, espero).  

"A solidão também é liberdade"

"Na minha balança, o ódio pesava muito, mas, graças a Deus, o amor também pesava; embora, lamentavelmente, e tenho de o confessar, o ódio tivesse roubado muito espaço ao amor".

"A inocência era um milagre mais frágil do que a neve"

No que diz respeito à história, os dois personagens principais, que vão, alternadamente, narrando os acontecimentos, são totalmente opostos. Temos Júlian, octogenário e doente, que viaja de Buenos Aires para El Tosalet, em Alicante, após receber uma carta do seu amigo, Salva, na qual relata que aí se encontra um casal de noruegueses nazis. Ambos estiveram no campo de concentração Mauthausen e dedicaram-se à caça de oficiais nazis, no pós guerra. Sandra, jovem e grávida, deixou o namorado, Santi, para ficar sozinha na casa da irmã a pensar na sua vida e, após se sentir mal na praia, ela é socorrida pelo tal casal de noruegueses de que Júlian anda à procura. A certa altura conhecem-se e esta dupla irá investigar esse casal, o Fred e a Karin, surgindo ainda mais figuras ligadas a esse passado e às atrocidades, eles que “vivem, e bem que vivem”. A certa altura também é explorada a possibilidade de existir um elixir da juventude, um segredo que os nazis sempre procuraram e que Alice esconde.

Em poucas palavras é o que se nos oferece revelar sobre o enredo. A destacar a relação de amizade entre Júlian e Sandra como uma amizade improvável entre quem teve a experiência de passar pelos campos de concentração e quer justiça e quem parece ingénua e algo superficial, especialmente quando pensa no dinheiro e na possibilidade de vir a herdar os bens do casal que a acolhe, sem descortinar as segundas intenções daqueles. Na realidade sabemos que muitos dos criminosos nazis se esconderam e viveram até à velhice sem que tenham sido punidos pelos seus atos atrozes contra seres humanos. E estou-me a lembrar, por exemplo, do Anjo da Morte, o nazista e médico Joseph Mengele, que fez experiências médicas hediondas e que, segundo consta, após a guerra, viveu na Argentina, no Paraguai e no Brasil.

Houve alturas que não consegui parar de ler e, talvez por procurar que ninguém saisse impune, a única coisa que me desapontou foi mesmo o final. É que tenho um sentido de justiça muito apurado, entendem, embora saiba de antemão que esse sentimento não se coaduna com a prática corrente.

Em suma, quem procura um thriller não se irá rever nesta história, não é disso que se trata, mas o leitor mais atento descobrirá que vale a pena ler (e pensar) sobre a forma como viveram os nazis no pós-guerra. Fala-se muito do holocausto. Pouco no que se passou a seguir. E esta história revela um pouco dessa realidade. Mas mais importante ainda é a história de uma amizade improvável forjada por ironia do destino; muito bem escrita e diferente do habitual. Eu adorei e recomendo.

 

Classificação: 4,5 /5*

 

 

livro oferecido pela matéria prima edições para opinião

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Opinião: Desde o Crime e Castigo, de Doestoievski, que fiquei com vontade de conhecer autores russos e de descobrir um pouco mais sobre cada um. Antes de avançar para um autor preferido, espero conseguir ter uma ideia sobre a forma como cada um escreve e como abordam alguns temas que prometem dar que pensar.

E foi isso mesmo o que aconteceu com Pais e Filhos, um romance sobre o conflito de gerações. De um lado, temos o Arkádi e o seu amigo Bazárov, jovem estudante de medicina, que nega tudo, acreditando apenas na ciência; do outro lado, os pais, conservadores e tradicionais, como, por exemplo, Nikolai Pietróvitch, pai de Arkádi, que vive da exploração agrícola e do trabalho dos camponeses (mujiques), usando métodos pouco eficazes e já ultrapassados.

Portanto, o conflito instala-se assim que Bazárov entra em cena, já que as suas opiniãos e personalidade chocam a família tradicional Pietróvitch, especialmente Pavel, irmão de Nikolai, que o detesta. Mas, nestes dois pontos antipoidais da história, o personagem Arkádi, sob a influência de Bazarov, possui, a meu ver, opiniões mais moderadas. 

Neste livro, existem ainda outros personagens, porém, destaco o que mais me impressionou:  Bazárov e  seu pensamento niilista, uma doutrina filosófica que atinge a literatura, a arte, a ética e a moral. Ele é o tipo personagem que choca: é frio, calculista, detesta a vida do campo e os camponeses, e não demonstra sentimentos por ninguém (exceto, talvez, por Anna), nem respeita os próprios pais.

Devo confessar que, a determinado ponto da história, o niilismo vincado de Bazárov recordou-me Camus e o seu existencialismo. Perante tais interpretações da realidade, nada faz sentido, nem a vida nem a morte, e tudo é permitido (Isto sou eu a divagar, portanto, vale o que vale).

Pais e Filhos é de rápida leitura e com um final que surpreende (a mim supreendeu, sem dúvida), o que veio confirmar a ideia de que os autores russos possuem uma habilidade invejável ao nível da escrita, bem como na forma como contam as suas histórias,continuando, assim, a desafiar, ainda hoje, os leitores. 

Classificação: 4/5*

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Opinião: Este livro suscitou-me de imediato a atenção, porque a capa se destaca em termos de design gráfico (como podem ver na fotografia) e porque tenho lido alguns autores suecos que me brindaram com histórias de pôr os nervos em franja - o que adoro, devo confessar.

Nicklas Natt Och Dag, neste livro de estreia, recebeu um prémio da Academia Sueca de Escritores de Crime e recebeu vários elogios por esse feito. Num deles, o de Erik Axl Sund, é referido que se trata de «Um thriller histórico sem paralelo e de grande qualidade literária. É cru, elegante, comovente e extremamente cativante até à última página». Existem outros, mas acho que este comentário resume muito bem todas as qualidades do livro 1793.

Quando iniciei a leitura, estranhei logo o facto de a polícia parecer actual, com relatórios e comissários, o que me deixou um pouco de pé atrás no que ao rigor histórico diz respeito. Não obstante essa “ligeireza” histórica, acabei por gostar da narrativa  sem quaisquer subterfúgios.

Mas vamos à história. Em Estocolmo, no Outono de 1793, um cadáver flutua no lago Fatburen. Dois pequenos vagabundos dão o alerta. E o guarda Mickel Cardell, sem o braço esquerdo, despe o casaco com dificuldade e nada em direção ao que julga ser uma carcaça de um animal. Mas então vê o corpo desfigurado, com a duas órbitas oculares vazias e, na boca, não vê um único dente. Entra depois em cena Cecil Winge, advogado, que trabalha com a polícia, que irá trabalhar no caso com o guarda Cardell e os dois irão procurar o assassino, começando por tentar descobrir qual a identidade do homem desfigurado e desmembrado. Para Winge é urgente encontrar esse assassino cruel, uma vez que está doente e sabe que não viverá muito mais tempo.

«Winge combate a morte com a mesma bússola que o guiou toda a vida – a razão. Esta diz-lhe que todos temos de morrer e que todos estamos a morrer. Ajuda. Mas, quando os suores nocturnos chegam e a mente vagueia livremente, é a sua morte em particular que o atormenta, não a ideia de morte em geral. Contempla todos os pormenores. A infecção irá espalhar-se pelas articulações e pelo esqueleto, como o que acontece a muitos dos que sofrem desta doença? Irá morrer no sono ou em agonia e paroxismo? Que tormentos sofrerá? Quando mais nada ajuda, tenta convencer-se de que a maior parte de si morreu da última vez que viu a mulher. Mas é um fraco consolo quando a parte de si que ainda vive é aquela que consegue sentir dor».

 

Winge, que é justo, racional e inteligente, bebe para esquecer. Achei impressionante a forma como os personagens masculinos tentam resolver os problemas recorrendo à bebida, mas, no século XVIII, era um hábito muito comum.  Penso que seria uma forma de sobreviverem à realidade, à miséria e às injustiças e agruras da vida. Curiosamente, Kristofer Blix é um cobarde que, surpresa, também bebe, e nós vamos ficar a conhecer a sua história através de cartas que ele escreve à sua irmã, já falecida. Uma narrativa diferente da anterior, mas que resultou muito bem, uma vez que aí é relatada toda a vida deste personagem.

Depois de ter ultrapassado a reacção de estranheza inicial, comecei a questionar, ainda, o facto de este livro não ter a presença de uma personagem feminina forte e corajosa. De facto, até à terceira parte (o livro tem quatro partes), apenas é feita uma breve menção à mulher do Winge e à prostituta Johanna, sendo que, quando surge a Anna Stina, quase a meio de livro, esta personagem feminina introduz um novo folgo ao enredo. Ela é surpreendente e muito diferente dos outros personagens, o que torna tudo mais interessante.

No livro, 1973, existem muito personagens, os quais vão surgindo e desaparecendo de seguida. Mickel Cardell, Cecil Winge, Kristofer Blix e Anna Stina, são os que se destacam e, embora, no decurso da história, tenha gostado mais de uns do que outros, todos tiveram um final que foi do meu agrado.

O escritor conseguiu dar uma nova voz à ficção histórica. A narrativa é dura, crua e sem qualquer tipo de enfeites linguísticos. As personagens são interessantes e bem desenvolvidas. E a história é intensa, invulgar e muito bem escrita. Gostei muito. Vale a pena ler.

Classificação: 5/5*

Este livro foi oferecido pela Editora Suma para opinião.

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A Mafalda recomendou-me este livro e agradeço-lhe imenso por isso. Obrigada, Mafalda, este livro deixo-me com vontade de ler mais desta autora, embora não existam ainda muito livros dela traduzidos em Portugal (e não me apetece lê-los em inglês:))

 

Opinião: Vou começar por vos deixar uma pequena nota em relação à obra, uma vez que não se trata de uma biografia e sim de uma obra de ficção baseada em factos reais. Isto deixou-me muito surpreendida, porque, quando leio um livro, não procuro saber a vida do autor. Aliás, não o faço para não ser influenciada. Só depois, e antes de escrever a minhas ideias, é que que faço alguma pesquisa. Eis senão quando me deparo com a informação de que este romance é baseado na história da avó de autora, conforme se comprova através da dedicatória:

Para Blanche Morgenstern, a «filha do coveiro».

É verdade que passei os olhos pela dedicatória, mas não prestei muita atenção, pois não entendi o seu significado. Mas vamos aos factos reais nesta história.

 

O pai de Joyce Carol Oates, já com 70 anos, resolveu contar o segredo de família relativamente ao avô Morgenstern. Este, depois de ter morto a mulher, matou-se com um tiro. A filha, Blanche Morgenstern, sobreviveu. A autora além de desconhecer esta história também não sabia que a avó era de ascendência judia. 

Nada mais é biográfico, o resto é imaginação de Oates, segundo julgo.

 

Portanto, o romance inicia-se em 1959 com a jovem mãe, Rebeca Schwart, que trabalha numa fábrica. No regresso a casa, num percurso que faz diariamente junto a um canal, ela é abordada por um homem que a confunde com Hazel Jones. Rebeca desconfia e consegue fugir ilesa.

No capítulo seguinte, a história volta atrás, para 1936, ano em que, depois da fuga da Alemanha nazi, Anna, a mãe de Rebeca, dá à luz, no porto de Nova Iorque, no meio da imundice. O pai, Jacob, antigo professor de matemática, é forçado a aceitar o emprego de Coveiro em Milburn, facto que nunca irá aceitar e que o levará a sentir-se discriminado e a um estado de verdadeira paranoia. Passam então a morar numa casa velha no interior do cemitério. Jacob transforma-se num tirano e isola a família. Proíbe a mulher de falar alemão e os filhos Herschel e Gus de terem amigos. Mas quando estes saiem de casa o pai mata Anna e suicida-se de seguida. Rebeca sai ilesa, embora assista a toda a cena.  A sua professora Rose Lutter toma conta dela, por ser menor, porém, esta sai de casa sem qualquer consideração ou atenção pela tutora. É então que conhece Niles Tignor e cometerá o maior erro da sua vida. 

 

Senti muita apreensão pelo futuro de Rebeca. Muitas das vezes não concordei com as suas decisões, embora ela lute por aquilo que acredita. Acho que é uma personagem muito bem construída, percebemos tudo o que se passa com ela, exceto mais no final da história em que parece que se transforma numa pessoa hermética, cheia de segredos. Desagradou-me esta faceta dela e esperei que, com todas as desgraças que ocorreram, no final se revelasse uma pessoa melhor. Na minha opinião, isso não aconteceu. Será que o dinheiro passou a ser mais importante?!

 

Posto isto, neste livro, um retrato cru da sociedade americana, o tema predominante é a violência, psicológica e física. É um retrato duro e visceral. A escrita, por vezes, também é dura:

A história não tem existência. Tudo o que existe são indivíduos, e, destes, só existem momentos singulares separados uns dos outros, como vértebras partidas.

 

No barco, tínhamos de comer o que nos davam. Comida estragada com bolor e baratas. Pegava nelas e esmagava-as com o pé e continuava a comer, a fome era muita. Ou isso ou morrer à fome. Quando atracámos, já tinhamos as tripas carcomidas e toda a gente cagava sangue e pus (...)

 

 

 

Numa linguagem simples, direta e realista, Joyce Carol Oates entrega-nos uma imagem de Rebeca (baseada na sua avó Blanche) como se tratasse do seu testemunho real, não deixando de lado nada, nem os seus defeitos. 

Gostei muito da escrita, com frases curtas, e da história inquietante. Recomendo.

 

Classificação: 4/5* (Só não dou 5* por culpa da Rebeca. O dinheiro muda muito as pessoas e gostaria de que a mensagem fosse outra).

 

 

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ResumoMais do que querer provar que a vida continua depois da morte, o objectivo é explorar como se estabelece a comunicação ente os vivos e os mortos. Este livro mudou a vida do autor. Talvez também mude a sua.

Opinião: Este livro é sobre um tema que muitos procuram esquecer e poucos ousam refletir, não sei se por desconhecimento ou se por receio. Como leitora ávida de assuntos relacionados com a religião e de histórias sobre quem comunica com o além, ou não tivesse lido Alan Kardec e outros livros que abordam o tema da espiritualidade, embarquei, com alguma bagagem, numa experiência única. 

Lê-lo é como dar pequenos passos e percorrer um caminho de espanto perante as experiências de vida dos médiuns, os sentimentos, impressões e imagens que lhes são transmitidas, a eles, sem que, no caso, tenham sido feito leituras corporais ou fornecidas quaisquer pistas.

O autor, Stéphane Allix, deixou de ser repórter de guerra após a morte do irmão num acidente de carro. Cerca de 12 anos depois, coloca cinco objetos no caixão do pai e, um ano depois, interrogará seis médiuns de forma a que o pai comunique com ele e lhe diga quais são.

"Cada um dos seis médiuns descreveu-me a mesma pessoa, porque esta pessoa está viva (…). Estamos eternamente ligados".

Este teste ou experiência revela-se um verdadeiro jogo de pictonary, uma vez que os médiuns desconhecem completamente qual o objetivo, possuem pouca informação e, nas sessões, aparecem o avô, o irmão e um irmão do avô, que é desconhecido na família do autor.  

Já todos sentimos arrepios inexplicáveis, uma sensação que nos deixa desconfortáveis. Geralmente, o assunto da vida depois da morte poderá ter esse efeito. Mas já pensaram que não sabemos as respostas a todas as perguntas nem o que estamos a fazer neste planeta? Não gostariam de saber? As nossas crenças, ou a ausência delas, não impedem que cada um de nós desenvolva a capacidade para percecionar o que permanece inacessível aos nossos sentidos?  A esta última pergunta respondo com um sim. Vivemos presos ao que acreditamos e ao que nos foi transmitido.

Nesta leitura, gostei muito da médium Christelle, a qual conseguiu conjugar o seu dom com a sua profissão de auxiliar de enfermagem. Ela ouve os mortos e ajuda-os, indo ao encontro do que eles lhe pedem para fazer e ou transmitir. Fascinou-me conhecer a vida destes seis médiuns, desde o momento em que tomam consciência das suas capacidades, geralmente em crianças, até a altura em que abandonam as suas profissões (com exceção da Christelle) para se dedicarem inteiramente à sua missão.

Depois de ter lido vários livros sobre o tema sinto que cada vez mais não podemos ignorar algo que faz parte da nossa essência. No entanto, A Prova não fornece detalhes sobre o Além. Fala antes dos espíritos, daqueles que geralmente permanecem num determinado lugar junto dos vivos, enquanto almas que precisam de ajuda, de luz e de amor. E relata  bem a necessidade de compreender melhor a partida dos que nos são queridos.

"Desde a morte do meu irmão – seu filho -, o meu pai pensava nisso constantemente e oscilava entre esperança e resignação. Não dizia muito, mas, durante os momentos que falávamos, sentia o sofrimento, a dor e a tristeza que a dúvida que o habitava a cada segundo representava. Parecia prisioneiro, dilacerado entre sensações contrárias. E os livros cuja leitura eu lhe sugeria não demonstravam fazer vacilar de forma duradoura a que ele chamava, com uma triste coragem, a «muralha imensa da bruma»".

Este livro ajuda a libertarem-se das amarras do materialismo e da «muralha imensa da bruma», e a compreenderem a capacidade de comunicação dos mortos, bem como a importância da mediunidade no processo de luto. 

Quer sejam meros curiosos ou realmente interessados no tema, recomendo esta leitura para que não sejam enganados, nem apanhados desprevenidos. A sério. Este livro é fascinante.

 

Classificação: 5/5*

Livro oferecido pelo clube do autor para opinião,

 

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SINOPSE: Aqui

OPINIÃO: Este livro tem tudo para nos conquistar de imediato, exceto a forma como está escrito. Para mim, foi difícil acompanhar o desenvolvimento desta história, muito por culpa da escrita do autor, com parágrafos gigantescos, com frases longas e, por vezes, com ideias contraditórias.

Mas já lá vamos.

A história começa de uma forma que nos choca, pois a jovem Teresa, que acaba de regressar da lua de mel, mata-se com um tiro no coração durante um almoço de família. Na verdade, foi este segredo que agarrou e fez com que não desistisse logo nas primeiras 30 páginas, tal como já havia acontecido com outro livro do mesmo autor, "Os Enamoramentos".

Depois da cena inicial, aparece Juan, sobrinho de Teresa, também jovem, casado, e tradutor de profissão. Enquanto Luísa, a sua esposa, está doente na cama de hotel, Juan observa pela janela uma mulher que o confunde com outro homem. Ao mesmo tempo que descreve o que se passa numa rua, em Havana, verifica como está Luísa e vai partilhando os seus pensamentos, receios e pressentimentos em relação ao seu próprio casamento.  

Tal como uma doença por vezes altera o nosso estado ao ponto de nos obrigar a interromper tudo e a ficar de cama durante dias a fio e a ver o mundo apenas a partir da almofada, o meu casamento veio interromper os meus hábitos e as minhas convições e também, o que é mais decisivo, também a minha forma de ver o mundo.

 

Juan sente-se perseguido pelos próprios pensamentos. Enquanto tradutor está habituado a observar e a refletir sobre o que ouve, especialmente se for na língua que entenda. Mas Juan, a meu ver, pensa demasiado.

 

O que se dá é idêntico ao que não se dá, o que desejamos ou deixamos passar, idêntico ao que tomamos e agarramos , o que vivenciamos, idêntico ao que não experimentamos e, não obstante levamos a vida e damos a vida a escolher, rejeitar e seleccionar, a traçar uma linha que separa as coisas que são idênticas e faça a nossa história uma história única que possamos recordar e se possa contar.

 

Esta e outras frases demasiado longas foram, na minha opinião, o verdadeiro entrave para que este livro não proporcionasse uma leitura mais aprazível. No entanto, gostei especialmente da utilização da citação da obra de Shakespeare [ "As minhas mãos são da tua cor; mas envergonho-me de trazer em mim um coração tão branco"]  no título, bem como desta constituir um elo de ligação entre o início e o fim da história.

 

Um livro para se gostar (ou odiar), mas que merece ser lido atendendo ao estilo original narrativo a que chamarei de "pensamentos em modo saramago".

 

Assim sendo, deixo-vos esta frase:

Não há nada que não se possa contar, até o que não queremos saber e não perguntamos e, não obstante, nos dizem e nós ouvimos.

 

CLASSIFICAÇÃO: 4/5

(lê aqui as primeiras páginas)

 

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Os apreciadores da beleza, da cor e da estética, adoram rodear-se de obras de pintores famosos em cada canto da casa. No seu mundo, o da arte, é importante  o conhecimento de todos os traços, pormenores, pinceladas e técnicas do artista. Ademais, os apreciadores e ou compradores, geralmente, têm um sentido apurado e, por vezes, encontram obras em sítios inesperadamente fáceis. Apreciar a Arte é uma arte, passo o pleonasmo, e, sabendo que a beleza tem um preço, há quem esteja disposto a pagar qualquer preço por uma obra ainda que a mesma tenha sido furtada de um Museu ou até de uma Igreja.

 

Sabendo que existe esse mundo paralelo do crime, o autor inspirou-se em alguns factos verídicos, como o roubo da Mona Lisa, no Louvre, em 1911, e a história d' A Última Ceia começa com o roubo da cópia da A Última Ceia  [ que corresponde à pintura original sobre a parede realizada por Leonardo da Vinci,  entre 1494 a 1498, no refeitório do Convento de Santa Maria Delle Grazie, em Milão, Itália].

O ladrão deixa uma mensagem "Obrigado pela pobre segurança. Vemo-nos dentro de um ano" e, ainda, um poema muito enigmático.

 

Gostei da premissa da história, mas não apreciei o romance entre a Sofia Conti, uma jovem portuguesa, e Giancarlo Baresi, um italiano de caráter duvidoso, dado que foi, a meu ver, algo precipitado (o facto de, no início, não ter gostado muito desta personagem também não ajudou, claro).
As partes que me suscitaram mais a atenção foram a cena de flagelação com um toque hediondo, do qual não posso falar, e as folhas do diário do professor Catalão, escrito aos oito anos. Pena é que não tenham existido mais páginas do diário, é  que achei simplesmente deliciosas as palavras que estava a aprender e a preocupação em escrever corretamente.

 

Mas refletindo um pouco sobre o final desta história, interrogo-mo se Leonardo da Vinci não terá razão:

Existem três tipos de pessoas: aquelas que veem, aquelas que veem quando lhes é mostrado e aquelas que não veem.

 

Creio que me enquadro no primeiro e segundo tipo de pessoas, porque quando acabo de ler um livro que me intriga volto sempre atrás à procura daquilo que me passou despercebido numa primeira leitura. E foi isso que aconteceu com A Última Ceia, uma vez que fiquei a pensar na divisão da história em: Livro 1 (esboço), Livro 2 (cor) e Livro 3 (Acabamento). Isso intrigou-me porque são as etapas necessárias numa pintura. Porém, só após a leitura é que dei conta de que a maior parte da história se encontra no Livro 2 (cor).  Cor, em sentido figurado, significa disfarce, pretexto, e tenho para mim que foi propositadamente que o autor tratou aí a maior parte da ação e evolução da  história,  a qual serviu para delinear uma personagem que surpreenderá, e muito, no final. Acho que esteve bem disfarçada!

 

De outra forma, se calhar numa interpretação mais verosímil, entendo que o Leonardo Da Vinci se estava a referir à existência de pinturas por baixo dos quadros e que só sabemos atualmente através do recurso a técnicas avançadas. Ou então, se pensarmos que só vemos o que nos é mostrado, estava a chamar à atenção para a existência de objetos bem visíveis nas suas pinturas, como o do nó na toalha da mesa n´A última Ceia, existindo teorias sobre o seu verdadeiro significado. 

 

Considero que este livro proporciona bons momentos e pergunto:

Do que estão à espera para o ler?

 

CLASSIFICAÇÃO:

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Quando era pequena adorava coser a roupa para as minhas bonecas e tinha a secreta aspiração de vir a tornar-me estilista. Eram tempos em que tudo parecia possível de alcançar, mas, a realidade era outra. Nunca aprendi costura a sério, nem tinha jeitinho nenhum para isso. Cheguei a pedir a uma tia, que fazia costura para fora, para  me ensinar. Ela procurava pequenos pedaços de tecido para eu aprender a cozer à máquina, mas não sei porquê aquela porcaria encravava sempre. Embora contrariada, por ser vencida pela agulha apressada da máquina, tive de desistir. Mas com uma agulha na mão lá conseguia fazer vários pontos e até ponto de cruz, o que me entretinha durante horas!

 

Já Sira Quiroga aprende desde cedo (e bem) o que são prespontos, a alinhavar e tudo o que se relaciona com a costura. A sua mãe trabalha no atelier da D. Manuela e é modista. Embora sejam pobres existe uma ligação especial entre mãe e filha.

Sira apercebe-se da riqueza existente nas casa das clientes onde vai fazer as entregas e, ao sentir-se deslumbrada por uma vida boémia e desafogada, irá envolver-se com a pessoa errada. É nesta parte da história que fiquei dececionada com Sira. Julguei que era mais esperta e perspicaz. Julguei que ninguém a conseguiria enganar ou que pelo menos ouvisse a mãe.

 

Repreedeu-me com as censuras mais contudentes que conseguiu trazer à boca. Chamou aos céus, suplicando  a intervenção de todos os santos, e tentou convencer-me com dezenas de argumentos a fazer marcha atrás nos meus propósitos. Quando verificou que nada daquilo servia, sentou-se na cadeira de baloiço ao lado da do meu avô, tapou a cara e pôs-se a chorar.

 

O livro «O tempo entre costuras», de 620 páginas, tem um pouco de história (da guerra civil espanhola e da Segunda Guerra Mundial), locais interessantes, espionagem, personagens bem construídos e momentos de mistério, como este:

 

Um homem. Sozinho. Um homem sozinho cujo rosto não consegui distinguir entre as sombras. Um homem qualquer que nunca me teria chamado a atenção se não tivesse vestida uma gabardina clara com a gola levantada, idêntica à do indivíduo que me seguia havia mais de uma semana. Um homem de gabardina de gola levantada que, a julgar pela direção do seu olhar, mais do que no enredo cinematográfico, estava interessado em mim.

 

 Este livro tem ainda mulheres fortes. As várias personagens femininas são diferentes e interessantes. Gostei da Dolores, da Candelaria, da Jamila, da Rosalinda Fox, da Beatriz Oliveira, de todas elas, porque resistem às adversidades à sua maneira. 

 

CLASSIFICAÇÃO:

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O que é que não gostei, perguntam vocês, para dar 4 estrelas? Eu não gostei do final.

O que foi aquilo?!

 

 





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