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Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami

por editepf, em 29.10.25

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Há livros que nos confundem, que nos perdem e nos tornam diferentes, e Kafka à Beira-Mar é um deles. Murakami conduz-nos por um labirinto onde o real e o sonho se misturam.

Kafka é o nome que o protagonista escolhe para si mesmo quando decide fugir. Um nome inventado, talvez um escudo, talvez uma libertação. Sai de casa para se afastar de uma relação paterna marcada pela violência e pela ausência, e parte em busca da mãe e da irmã que desapareceram quando ele era apenas uma criança. É acompanhado pelo “rapaz-corvo”, essa voz interior que lhe fala, o aconselha e o julga- uma consciência que ora protege, ora atormenta.

“O teu coração é como um grande rio depois de uma forte chuvada.”

Em paralelo, conhecemos Nakata, um velho que perdeu a memória e a capacidade de ler depois de um estranho acidente na infância, mas que ganhou dons inexplicáveis: fala com gatos, compreende o que o mundo não explica e, por vezes, faz com que peixes chovam do céu. Um personagem terno e enigmático que parece existir num plano próprio, guiado apenas pela simplicidade e pela intuição.

Murakami tece entre estes dois mundos uma teia de realismo mágico: gatos falantes, florestas vivas, espíritos errantes e objetos simbólicos que nos levam a questionar onde termina o sonho e começa a realidade. Há também uma presença constante da música e da literatura, como se ambas fossem pontes invisíveis entre as dimensões que as personagens habitam.

“Quando estás acordado, sempre podes suprimir a imaginação. Mas não podes eliminar os sonhos.” 

No início, estranhei. A meio, confundi-me. No fim, percebi que essa estranheza nunca desapareceria — pelo contrário, cresceu comigo. Terminei o livro com mais perguntas do que respostas, e nem todas boas.

É impossível ignorar o desconforto que certas passagens provocam, sobretudo na forma como as personagens femininas são apresentadas. Em Murakami, as mulheres parecem nascer do olhar masculino (são corpos, desejos, presenças etéreas que servem a transformação interior dos homens). A sexualização é constante, e algumas cenas ultrapassam o limite do necessário. Fica a sensação de que a profundidade feminina é sacrificada em nome da fantasia.

Ainda assim, há algo de magnético em Kafka à Beira-Mar. É um livro que se lê com perplexidade e, talvez, com fascínio. Uma viagem espiritual, mítica e confusa, mas também uma reflexão sobre a culpa, a memória e o destino. Murakami convida-nos a aceitar o mistério, a caminhar na névoa e a encontrar sentido no absurdo.

Esta foi uma leitura partilhada e intensa com o grupo #KafkaGirls, uma experiência literária cheia de descobertas e vozes que se cruzaram no espelho da interpretação. Agradeço à Sara por me ter levado a mergulhar neste mar simbólico, um mar onde, por mais que tentemos compreender, acabamos sempre à deriva, entre o sonho e o despertar.

E assim é a vida. 

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Ao abrir Quem Tem Medo dos Santos da Casa, somos convidados a entrar num espaço carregado de tradições, rituais e silenciosa opressão. A protagonista, Maria Teresa, cresce numa vila piscatória, onde a religião, a moral e as expectativas familiares definem não só os gestos, mas os pensamentos, os desejos e as memórias.

Sara Duarte Brandão constrói a narrativa com uma escrita poética e fragmentada. Cada capítulo funciona como um pequeno ensaio de sentimentos e reflexões, onde o passado e o presente se entrelaçam, permitindo ao leitor percorrer os meandros da memória, da culpa e da liberdade ansiada.

O livro é, sobretudo, sobre o conflito entre ser e dever ser. Maria Teresa enfrenta os santos da casa — símbolos de tradição e moral — mas também confronta o seu próprio medo de desagradar, de falhar, de se perder entre expectativas alheias. É nesta tensão que a obra encontra a sua beleza: na observação sensível do mundo interior da protagonista e na delicadeza com que cada pensamento é exposto.

A leitura é introspectiva, sim, mas também libertadora. Revela que a verdadeira coragem é questionar os limites impostos, que a liberdade começa com o reconhecimento das próprias angústias e desejos, e que a poesia não precisa de adornos para tocar profundamente quem lê.

💭 Resumo em síntese:

  • Um romance poético e introspectivo.
  • Sobre liberdade, tradição e identidade.
  • Cada página é uma reflexão que permanece no peito.

Gostei muito e recomendo! 

 

Pensamentos Malignos, de Nora Roberts

Quando um dom se torna maldição

por editepf, em 29.09.25

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Pensamentos Malignos de Nora Roberts é um daqueles romances em que o dom se torna maldição, e onde os segredos do passado tecem sombras que ainda assombram o presente.

Quando Thea Fox retorna a Redbud Hollow, acredita estar reconstruindo a vida: uma carreira criativa como designer de videojogos, um chalé acolhedor, a avó querida, e o reencontro com Tyler, a paixão de adolescência. Tudo parece alinhar-se. Mas o dom que herdou da avó — a capacidade de entrar nas mentes, ouvir pensamentos e até vislumbrar o futuro — transforma-se numa prisão.

De um lado, o trauma do assassinato dos pais, vivido ainda em criança. Do outro, a esperança de recomeçar e encontrar o amor. Nora Roberts mistura suspense psicológico, toques sobrenaturais, romance e laços familiares com ternura e intensidade.

O dom de Thea poderá ser entendida como uma metáfora: aquilo que poderia ser poder, torna-se fardo. Saber demais. Ouvir demais. Ver demais. E, ainda assim, é o que lhe dá força e identidade.

Redbud Hollow é quase um personagem, com cheiro a casa de infância, memórias que confortam e ferem ao mesmo tempo. É fácil sentir intimidade com Thea através da avó, dos irmãos, dos espaços familiares que carregam histórias.

Contudo, nem tudo corre na perfeição. O ritmo é lento em certos momentos, com descrições longas da rotina que, embora ajudem a construir a personagem, podem abrandar o suspense. O vilão, embora inquietante, nem sempre consegue transmitir a ameaça constante esperada num thriller.

Ainda assim, é um romance que prende pela mistura de géneros e pelo retrato de personagens vulneráveis mas resilientes. Para quem procura uma leitura que une mistério, romance e drama humano, Pensamentos Malignos é a leitura ideal. Já quem espera um thriller puro e acelerado pode sentir-se menos envolvido.

Recomendo a fãs de Nora Roberts que apreciam o seu equilíbrio entre emoção e mistério, e a leitores que gostam de histórias onde o "sobrenatural" é pano de fundo para dilemas humanos.

Ele é meu, de Dorothy Koomson

por editepf, em 22.09.25

 

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Neste livro, acompanhamos Robyn “Avril” Managa, que aos doze anos testemunhou o pai controlador e abusivo matar a mãe. Enquanto ele recebeu uma nova identidade através do programa de Proteção de Testemunhas, Robyn foi deixada num lar de acolhimento, crescendo com o trauma e a sede de vingança. Já adulta, decide ajustar contas com o passado, eliminando todos os que tiveram ligação ao caso do pai e deixando junto de cada vítima um bilhete enigmático: “Ele é meu”. Só no final consegui perceber o verdadeiro significado desta mensagem — e confesso que fiquei surpreendida.

Na investigação surge a Dra. Kez Lanyon, profiler e terapeuta, determinada a compreender a mente perturbada de Robyn e a travá-la antes que mais vidas se percam. Tal como uma boa personagem de thriller psicológico, também ela guarda os seus próprios segredos.

O livro está dividido em catorze partes, o que lhe dá um bom ritmo, e tem várias reviravoltas inesperadas. Senti a intensidade psicológica a crescer ao longo da leitura, com momentos que me prenderam completamente.

Por outro lado, talvez por conhecer a autora apenas através dos seus romances e não ter lido o thriller anterior, houve passagens que me pareceram um pouco forçadas e por vezes tive a sensação de déjà vu, como se já tivesse lido algo semelhante. Ainda assim, a experiência foi muito positiva e gostei da forma como a autora se aventurou neste género.

Em suma: Recomendo a quem gosta de thrillers densos e perturbadores. Apesar de algumas passagens me parecerem já vistas, a leitura foi muito envolvente.

Já leste algo da autora neste género? Conta-me nos comentários!

Classificação: 4*/5*

Terra Ferida, de Clare Leslie Hall

por editepf, em 17.09.25

20250908_092051 (1).pngAo ler Terra Ferida, senti-me completamente envolvida pela história de Beth e Frank. À primeira vista, parece um casamento perfeito, mas rapidamente percebi que segredos do passado estão prestes a abalar tudo. Quando Jimmy dispara contra o cão que invade a quinta — o mesmo que pertencia a Gabriel Wolfe, o primeiro amor de Beth — percebi que a vida de todos mudaria para sempre.

O regresso de Gabriel, acompanhado pelo filho Leo, trouxe à tona memórias e dores que pensei que Beth já tivesse superado. Foi impossível não sentir o peso das antigas paixões, ciúmes e escolhas que moldaram o presente da protagonista. Cada capítulo fez-me refletir sobre como os segredos e decisões do passado nos acompanham e influenciam quem nos tornamos.

Adorei a forma como Clare Leslie Hall equilibra emoção, tensão e introspeção. Senti cada personagem de forma real e intensa, e a narrativa fez-me questionar escolhas e arrependimentos que, muitas vezes, nos definem.

Recomendo este livro a quem gosta de romances que exploram profundamente as emoções humanas, os segredos do passado e as consequências das nossas decisões.

E tu, se estivesses no lugar de Beth, que caminho escolherias?

Coisas ruins, de João Zamith

por editepf, em 08.09.25

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Este livro surpreendeu-me.

A morte do patriarca Henrique Viaforte abala a família, mas rapidamente percebemos que o enredo vai muito além do drama familiar. O autor constrói uma narrativa onde o sobrenatural português se cruza com uma forte crítica social: a forma como os ricos acumulam poder e fortuna, à custa da obediência e subserviência dos mais pobres.

A escrita é intensa e profundamente enraizada na nossa cultura, com referências a tradições e crenças que lhe dão autenticidade. Não o senti como um livro de horror, mas como uma reflexão sobre o peso da fé, do misticismo e da desigualdade social. A leitura foi ainda mais rica porque já tinha lido Memórias de um Exorcista do padre Gabriel Amorth - a quem o autor faz uma breve referência nesta história. 

O final foi intenso e coerente, fechando a narrativa de forma a dar sentido a todo o percurso. 

É sem dúvida uma estreia sólida, que está ao nível de qualquer autor estrangeiro, e que desperta a curiosidade sobre o que mais este autor tem para nos contar.

Gostei muito e recomendo a quem aprecia histórias que combinam mistério, sobrenatural, tradição popular e reflexão social.

 E tu, já leste Coisas Ruins? 

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Uma Árvore no Céu de Brooklyn, de Betty Smith, é um daqueles romances que nos tocam pela simplicidade e, ao mesmo tempo, pela profundidade. Transporta-nos para o início do século XX, no bairro de Williamsburg, em Brooklyn, onde a vida é marcada pela pobreza, mas também pela persistência e pela esperança.

Acompanhamos Francie Nolan, uma jovem sensível, sonhadora e atenta ao que a rodeia. É através dos livros e da imaginação que encontra refúgio para escapar às dificuldades do quotidiano, alimentando a sua vontade de aprender e de sonhar com um futuro melhor. Francie não é apenas uma personagem, é quase um espelho de todas as crianças que crescem em ambientes duros, mas que, ainda assim, conseguem ver beleza e possibilidade no mundo.

Ao seu lado, estão figuras que enriquecem a narrativa e lhe dão profundidade emocional: Katie, a mãe prática e determinada, que carrega nos ombros o peso da sobrevivência da família; Johnny, o pai encantador e sonhador, mas fragilizado pelas suas próprias limitações; e Neeley, o irmão, que partilha com Francie tanto os desafios como os pequenos momentos de ternura. Juntos, constroem um retrato vivo de como a família, apesar de todas as adversidades, é um pilar essencial de força e esperança.

O que torna este romance inesquecível é a forma como nos mostra que, mesmo nos cenários mais difíceis, existe sempre espaço para acreditar, para sonhar e para criar um caminho diferente. O desfecho, longe de ser um ponto final, abre uma janela para o futuro de Francie e deixa-nos com a vontade de continuar a acompanhá-la, de saber para onde a levarão os seus sonhos e a sua resiliência.

Gostei imenso desta leitura e recomendo vivamente. Tal como a árvore que cresce entre o cimento, também Francie nos prova que é possível resistir e acreditar.

E vocês, já leram? Que impressões vos deixou a história de Francie Nolan?

 

 

 

Os Bastardos de Hitler, de Francisco Ramalheira, não é apenas sobre a guerra. É sobre o que veio depois: crianças órfãs, memórias dolorosas e a luta por reconstruir vidas. Falamos tanto do Holocausto e da crueldade nazi, mas raramente olhamos para o que veio depois, especialmente para as crianças órfãs. 

Confesso que desconhecia muitos destes pormenores; a leitura começou por ser difícil, mas não conseguia parar de avançar. O autor revela histórias que merecem ser lembradas.

No Covil, encontramos Hanna, Lewi, Wa, Gábor, Abi, Marianne… e até o Ranhoso. Crianças marcadas pelo trauma, mas também capazes de ternura, amizade e resiliência. São personagens tão reais que nos apetece abraçá-las e proteger cada uma. A cena de Waclaw ficará comigo durante muito tempo.

A escrita equilibra história e emoção, transportando-nos para uma época sombria com uma leveza inesperada. Aqui não há necessidade de grandes vilões: a guerra e a sobrevivência já são cruéis o suficiente. O foco está na bondade que persiste, no amor fraterno como salvação e na esperança que insiste em florescer.

O final é comovente e vem lembrar-nos que, mesmo após a maior tragédia, há espaço para o amor e para a vida.

Uma leitura dura, mas cheia de amor e bondade. Um livro que nos faz refletir e, sobretudo, sentir.

Já conhecias este lado menos explorado da Segunda Guerra Mundial?  

A Mulher do Camarote 10, de Ruth Ware

por editepf, em 19.08.25

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Um cruzeiro de luxo, uma jornalista em busca da reportagem da sua vida e um grito na noite que muda tudo. É com esta premissa que Ruth Ware nos prende do início ao fim em A Mulher do Camarote 10, um thriller psicológico que combina suspense, mistério e tensão claustrofóbica.

A narrativa é intensa e sufocante, construída de forma a manter o leitor em dúvida constante: terá Lo Blacklock realmente testemunhado um crime ou tudo não passou da sua imaginação, influenciada por trauma, medicação e ansiedade? É este jogo de perceções que transforma a leitura numa experiência psicológica profunda, mais do que um simples “quem fez o quê”.

Embora a história seja viciante, senti falta de uma ligação mais próxima com as personagens. Lo, apesar de central e complexa, e os restantes passageiros, enigmáticos, mantêm uma certa distância emocional. Ainda assim, esta aura de mistério contribui para o suspense, tornando cada página imprevisível e carregada de tensão.

O final consegue surpreender mesmo para quem adivinhou parte do desenlace, revelando que, num navio cheio de segredos, nada é o que parece. Ruth Ware prova, mais uma vez, a sua habilidade em criar thrillers inteligentes, psicológicos e envolventes, capazes de manter o leitor colado até à última página.

Gostei bastante desta história, embora ache que " Um casal perfeito" continua a ser o meu favorito da autora.

E tu? Já leste? O que achaste?

 

A Mansão, de Anne Jacobs

por editepf, em 18.08.25

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Anne Jacobs, autora da aclamada série A Vila dos Tecidos, leva-nos agora à Alemanha do pós-Segunda Guerra Mundial com A Mansão, uma saga familiar emocionante que atravessa gerações.

Neste primeiro livro, conhecemos Franziska, Jenny e Cornelia, três mulheres de épocas diferentes, cada uma à procura de amor, esperança e do legado da mansão da família. 

Franziska conquistou-me especialmente: resiliente, determinada e com uma clareza admirável sobre o que quer da vida, é impossível não torcer por ela.

Sendo esta a minha estreia com Anne Jacobs, não posso comparar com A Vila dos Tecidos, mas recomendo imenso esta leitura. Este é apenas o início da saga, e mal posso esperar para descobrir o que vai acontecer a seguir...

Se já leste ou estás curiosa para conhecer esta história, deixa nos comentários a tua opinião ou expectativa.

 

 


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