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Começou como uma experiência de biblioterapia, essa forma tão simples e profunda de encontrar sentido nos livros e, com eles, em nós próprios. Líamos para estarmos presentes num convívio saudável, para compreendermos os nossos gostos e os dos outros e, sobretudo, para partilhar as melhores leituras de cada um. Era um espaço íntimo, quase terapêutico, uma catarse de ideias onde a palavra tinha peso e a escuta era tão importante como a fala. As leituras eram diferentes, os estilos variavam, mas isso não importava. A beleza estava na diversidade, na liberdade com que cada um trazia o seu mundo e o oferecia aos outros. Era leve, era vivo.E assim, num círculo de leitores livres, criava-se algo bonito: uma escuta sem pressa e uma partilha verdadeira.

Mas os grupos crescem. E, com o crescimento, chegam também as dificuldades. Mais pessoas significam mais livros, mais opiniões, mais vozes a quererem ser ouvidas. O tempo, que antes parecia sobrar, começou a faltar. As intervenções tiveram de ser controladas, os temas passaram a ser sugeridos, as regras começaram a surgir — discretas, mas necessárias. E com elas vieram os primeiros sinais de desconforto.

Nem todos gostaram. Alguns sentiram-se travados, outros atropelados. Uns queriam mais profundidade, outros mais leveza. Os que seguiam as regras começaram a sentir que eram os únicos a ceder. Os que não as respeitavam pareciam não perceber o impacto que causavam. A harmonia deu lugar ao desequilíbrio. E, com o tempo, a partilha passou a ser também frustração.

Mais pessoas significaram mais livros, mais gostos, mais formas de estar. Aos poucos, a leitura deixou de ser encontro e passou a exibição. Já não se fala tanto do que o livro nos fez sentir, mas da opinião que temos sobre ele. 

Tentámos ajustar. Dividir o tempo, dividir o grupo, encontrar soluções. Mas gerir um grupo é, muitas vezes, gerir vontades que nem sempre se cruzam. E quando se começa a criticar sem propor alternativas, quando se fala alto mas se recusa escutar, já não se está a contribuir. Está-se a complicar.Está-se a repetir e a fazer parte do problema.

Aquele lugar onde se partilhavam emoções transformou-se, aos poucos, num espaço onde se acumulam opiniões. E o que era terapêutico tornou-se cansativo.

Partilhar livros é partilhar pedaços de nós. É um gesto de entrega. E a entrega só floresce quando há respeito, quando há tempo para o outro existir também. Talvez um clube de leitura não precise de ser perfeito. Mas precisa de ser humano. Precisa de saber acolher. E isso começa em cada um de nós. No silêncio atento, na palavra comedida, no desejo sincero de estar ali, não só para ser ouvido, mas para ouvir também.

O que se sonhou como biblioterapia não precisa de morrer. Só precisa de reencontrar o seu centro. E esse centro está sempre em nós. Talvez o segredo não esteja em agradar a todos, mas em não esquecer o propósito que nos juntou. 

O que pensas sobre o desafio de partilhar leituras num grande grupo? Achas que é possível manter o espírito da biblioterapia num grupo maior?

 

 


8 comentários

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De Maribel Maia a 28.07.2025 às 17:14

Se a paixão e o hábito de ler for constante, parece-me uma excelente ideia!!!
Boa semana!
Beijinhos!
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De editepf a 29.07.2025 às 09:43

Obrigada! É mesmo isso, quando o gosto pela leitura é genuíno, estas experiências podem ser muito enriquecedoras. Mesmo com os desafios, vale sempre a pena tentar criar espaços de partilha e escuta.
Boa semana também!
Beijinhos e boas leituras 
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De marta-omeucanto a 29.07.2025 às 09:55

Acredito que quando um projecto, que criámos ou para o qual contribuímos com um determinado objectivo, já não nos traz ou dá aquilo que era suposto, o melhor é sair dele, ou pôr-lhe um fim.
Será sempre difícil voltar à ideia inicial, quando todo o sentido do mesmo se alterou ou se desvirtuou.
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De editepf a 29.07.2025 às 10:03

Sim, a reflexão que fiz vai mesmo nesse sentido. Ultimamente tenho sentido que o propósito inicial se foi diluindo, e custa perceber que aquilo que criámos com tanto entusiasmo já não tem o mesmo significado. Ainda estou a ponderar o que fazer; nem sempre é fácil saber quando é o momento certo para parar ou para tentar reinventar. Mas quando o projecto já não nos devolve o que nos movia, é inevitável começar a questionar. 
Obrigada por estares desse lado e por leres com atenção 💛

Beijinhos e Boa Semana!
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De mitologia.pt a 06.08.2025 às 16:10

Fica uma ajudinha - o truque para situações como essas passa por lerem os livros, sim, mas discutirem em conjunto apenas uma passagem que ficou definida antecipadamente.
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De editepf a 07.08.2025 às 09:31

Ahhh, faz todo o sentido! Neste clube não há livro obrigatório, cada um lê o que gosta — por isso nem sempre é fácil alinhar as conversas. 
Obrigada pela partilha
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De Ana a 06.08.2025 às 20:05

Partilhar leituras em grupo pode ser muito interessante e enriquecedor. Acho que é possível ter um grupo de leitura, que seja também um grupo de amigos. Saber escutar, estar presente e o respeito pelos outros é fundamental para o que o grupo funcione. O gosto pela leitura pode tornar-se um elo muito forte entre as pessoas. 
Beijinhos e boas leituras!




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De editepf a 07.08.2025 às 09:30

Concordo tanto contigo!  Quando há respeito e partilha verdadeira, os grupos de leitura tornam-se mesmo especiais, e às vezes até nascem amizades lindas entre páginas e conversas.
Beijinhos e boas leituras também! 

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