Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami

por editepf, em 29.10.25

20251014_221530(1).jpg

Há livros que nos confundem, que nos perdem e nos tornam diferentes, e Kafka à Beira-Mar é um deles. Murakami conduz-nos por um labirinto onde o real e o sonho se misturam.

Kafka é o nome que o protagonista escolhe para si mesmo quando decide fugir. Um nome inventado, talvez um escudo, talvez uma libertação. Sai de casa para se afastar de uma relação paterna marcada pela violência e pela ausência, e parte em busca da mãe e da irmã que desapareceram quando ele era apenas uma criança. É acompanhado pelo “rapaz-corvo”, essa voz interior que lhe fala, o aconselha e o julga- uma consciência que ora protege, ora atormenta.

“O teu coração é como um grande rio depois de uma forte chuvada.”

Em paralelo, conhecemos Nakata, um velho que perdeu a memória e a capacidade de ler depois de um estranho acidente na infância, mas que ganhou dons inexplicáveis: fala com gatos, compreende o que o mundo não explica e, por vezes, faz com que peixes chovam do céu. Um personagem terno e enigmático que parece existir num plano próprio, guiado apenas pela simplicidade e pela intuição.

Murakami tece entre estes dois mundos uma teia de realismo mágico: gatos falantes, florestas vivas, espíritos errantes e objetos simbólicos que nos levam a questionar onde termina o sonho e começa a realidade. Há também uma presença constante da música e da literatura, como se ambas fossem pontes invisíveis entre as dimensões que as personagens habitam.

“Quando estás acordado, sempre podes suprimir a imaginação. Mas não podes eliminar os sonhos.” 

No início, estranhei. A meio, confundi-me. No fim, percebi que essa estranheza nunca desapareceria — pelo contrário, cresceu comigo. Terminei o livro com mais perguntas do que respostas, e nem todas boas.

É impossível ignorar o desconforto que certas passagens provocam, sobretudo na forma como as personagens femininas são apresentadas. Em Murakami, as mulheres parecem nascer do olhar masculino (são corpos, desejos, presenças etéreas que servem a transformação interior dos homens). A sexualização é constante, e algumas cenas ultrapassam o limite do necessário. Fica a sensação de que a profundidade feminina é sacrificada em nome da fantasia.

Ainda assim, há algo de magnético em Kafka à Beira-Mar. É um livro que se lê com perplexidade e, talvez, com fascínio. Uma viagem espiritual, mítica e confusa, mas também uma reflexão sobre a culpa, a memória e o destino. Murakami convida-nos a aceitar o mistério, a caminhar na névoa e a encontrar sentido no absurdo.

Esta foi uma leitura partilhada e intensa com o grupo #KafkaGirls, uma experiência literária cheia de descobertas e vozes que se cruzaram no espelho da interpretação. Agradeço à Sara por me ter levado a mergulhar neste mar simbólico, um mar onde, por mais que tentemos compreender, acabamos sempre à deriva, entre o sonho e o despertar.

E assim é a vida. 


4 comentários

Imagem de perfil

De Vera a 29.10.2025 às 10:03

Li este livro há muito tempo (mais de uma década) e sei que adorei e que, na altura, era um dos meus livros preferidos. Fui-me esquecendo da história e fui lendo mais livros do Murakami e comecei a aperceber-me da questão das personagens femininas... Parece ser um tema comum na escrita dele e isso incomoda-me. Retirou o encanto e deixei de ler o autor por inteiro.


"Gostaria" de reler este livro um dia, porque hoje em dia já não me lembro de absolutamente nada dele, mas saber que é mais um que tem esse problema tira-me logo a vontade de o fazer...
Imagem de perfil

De editepf a 29.10.2025 às 11:05

Li Sputnik, meu amor há uns anos e lembro-me de ter sentido alguma estranheza também. Desta vez li Kafka à Beira-Mar numa leitura partilhada e gostei muito da experiência. É realmente um livro que convida à discussão. 
Quanto à questão das personagens femininas, começo a achar que é algo muito ligado à cultura, ou a uma sociedade diferente da nossa. No Peito Grande, Ancas Largas, do autor chinês Mo Yan, que ganhou o Nobel, também encontrei uma personagem masculina com um fetiche que desconhecia por completo e que me deixou perplexa - porque existe mesmo!

Ainda assim, como gosto da escrita do Murakami, sei que vou querer ler mais dele, mas provavelmente não o farei tão cedo 
Imagem de perfil

De editepf a 29.10.2025 às 11:07

*um personagem masculino*
Imagem de perfil

De Vera a 29.10.2025 às 14:27

Agora que falou no Sputnik, Meu Amor é que me apercebi que foi esse que li e adorei, e não este da publicação  O meu cérebro fugiu... Nem consigo explicar como aconteceu esta confusão  


Tinha este na minha lista para ler, mas nunca o cheguei a fazer por essas razões. Li o Norwegian Wood e encontrei o mesmo problema. Talvez seja algo cultural mesmo... Acho que ainda não tenho conhecimento literário suficiente de autores dessa zona para perceber.

Comentar post



foto do autor



Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


2025 Reading Challenge

2025 Reading Challenge
Edite has read 0 books toward her goal of 60 books.
hide