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O Livro Pensamento

O Livro Pensamento

27
Mar17

História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, de Luis Sepúlveda

história de uma gaivota.jpg

Antes que pensem que ando obcecada com gatos, relembro que pertenço a dois Clubes de Leitura e, para o Clube de Leitura Conversas Livrásticas, no mês de fevereiro o tema foi: animais. Eu selecionei apenas dois livros pequenos, este, o do Gato Malhado, e o conto de Edgar Allan Poe (aqui).

A história da gaivota e do gato é, além de uma fábula, uma linda lição, uma vez que dois seres tão diferentes são unidos na amizade por uma promessa. Ao mesmo tempo a história aborda um assunto sério que é o da poluição. 

Zorbas, um gato grande, preto e gordo, mora numa casa perto do porto de Hamburgo. Numas férias, Zorbas fica em casa, sozinho, e quando estava a apanhar sol na varanda, cai ali, mesmo à sua frente, uma gaivota moribunda. Esta, foi apanhada pela maré negra, e antes de morrer, põe um ovo e faz três pedidos ao grande gato. Zorbas, que é um gato de palavra, cumprirá as suas promessas: não comer o ovo, tomar conta da gaivota, e ensiná-la a voar. Para isso terá a ajuda dos seus amigos Secretário, Sabetudo, Barlavento e Collonello.

Gostei muito desta história, porque ensina a importância da amizade e das promessas, e porque tem momentos divertidos, nomeadamente, com o gato Collonello que costuma miar palavras em italiano e queixar-se dos outros tirarem os miados da sua boca.

Posto isto, fiquei muito surpreendida quando encontrei expressões que me fizeram lembrar as "Línguas-de-gato" e eu nem conhecia o livro!

Miar a língua dos humanos é tabu. Assim rezava a lei dos gatos, e não porque eles tivessem interesse em comunicar com os humanos. O grande risco estava na resposta que os humanos dariam. Que fariam com um gato falante? Com toda a certeza iriam encerrá-lo numa jaula para o submeterem a toda a espécie de provas estúpidas, porque os humanos são geralmente incapazes de aceitar que um ser diferente deles os entenda e trate de se dar a entender (pág.113).

 

Sinopse: Esta é a história de Zorbas, uma gato grande, preto e gordo. Um dia, uma formosa gaivota apanhada por uma maré negra de petróleo deixa ao cuidado dele, momentos antes de morrer, o ovo que acabara de pôr.

Zorbas, que é um gato de palavra, cumprirá as duas promessas que nesse momento dramático lhe é obrigado a fazer: não só criará a pequena gaivota, como também a ensinará a voar. Tudo isto com a ajuda dos seus amigos Secretário, Sabetudo, Barlavento e Colonello, dado que, como se verá, a tarefa não é fácil, sobretudo para um bando de gatos mais habituados a fazer frente à vida dura de um porto como o de Hamburgo do que a fazer de pais de uma cria de gaivota…
Com a graça de uma fábula e a força de uma parábola, Luis Sepúlveda oferece-nos neste seu livro já clássico uma mensagem de esperança de altíssimo valor literário e poético.

22
Mar17

Paris é uma festa, de Ernest Hemingway

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Quando olhei para a capa e para o título julguei tratar-se de um romance e iniciei a leitura com essa expetativa. Só depois verifiquei que a obra se baseia em factos reais e que estamos perante as memórias do próprio Hemingway.

No início do livro, o autor refere que poderá ser considerada uma obra de ficção. No entanto, acredito que essa afirmação fosse fruto do distanciamento temporal, uma vez que Hemingway escreveu as memórias parisienses perto dos 60 anos. Nessa altura vivia em Cuba, já tinha recebido o Prémio Nobel da Literatura e já tinha tido várias mulheres. Infelizmente, devido a uma depressão e outros problemas de saúde, acabaria por se suicidar, pouco depois, em 1961.

O livro revela um Hemingway jovem que, com apenas 22 anos, lê pela primeira vez os clássicos, como Tolstói, Dostoievski e Stendhal. No período entre 1921 e 1926, o escritor refere as dificuldades financeiras pelas quais passou, descreve a cidade de Paris e os bares que frequentava, fazendo referências aos escritores com quem conviveu, designadamente Gertrude Stein, James Joyce, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald.

A parte que mais gostei  é a de quando Hemingway se encontra com Fiztgerald. Os dois tornam-se amigos e vivem situações no mínimo caricatas.

Por fim, poderia deixar uma citação sobre a cidade de Paris, mas a frase que me chamou a atenção foi esta:


Dizem que as sementes daquilo que havemos de realizar se encontram todas já dentro de nós, mas sempre me pareceu que naqueles que troçam da vida, as sementes se encontram cobertas da melhor terra e de uma percentagem mais alta de adubo.

 

Sinopse: Em 1921, um jovem Ernest Hemingway chega a Paris decidido a abandonar o jornalismo e a iniciar carreira como escritor. De bolsos vazios e com a cabeça povoada de sonhos, percorre as ruas de uma cidade vibrante nos dias de pós-Primeira Guerra Mundial, senta-se nos seus cafés para escrever, recolhe-se em retiros apaixonados com a sua primeira mulher, Hadley, e partilha aprendizagens e aventuras com algumas das mais fulgurantes figuras do panorama literário da época, como Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald ou a madrinha desta - por si apelidada - «geração perdida», Gertrud Stein. Situada entre a crónica e o romance, Paris é uma Festa é a memória destes anos e a obra mais pessoal e reveladora de Hemingway. Deixada inacabada pelo autor, seria publicada postumamente, em 1964.

 

17
Mar17

O gato preto, de Edgar Allan Poe

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Li este conto na internet (http://www.livros-digitais.com/edgar-allan-poe/o-gato-negro/sinopse) enquanto pesquisava livros para falar no clube de leitura "Conversas Livrásticas". Já tinha lido “Os crimes da Rua Morgue” e sabia que o escritor é conhecido pelas histórias de mistério um tanto sinistras.

“O Gato Preto”, de Edgar Allan Poe, foi escrito em 1843, e é uma história repleta de simbolismo que ainda hoje é analisada pela psicologia.

 

O narrador gosta de animais sobretudo de um gato preto, chamado Plutão, mas devido ao álcool ele sofre mudanças de humor e torna-se violento, chegando a cortar um dos olhos do gato e até a enforcá-lo numa árvore. É nessa noite que há um incêndio na casa da família e o narrador entende isso como um mau presságio, especialmente quando vê a sombra do gato enforcado numa parede que se manteve de pé.

Uma noite, já muito bêbedo, vê um gato semelhante a Plutão e leva-o para casa. Só depois se apercebe que o gato tem uma mancha branca no pêlo em forma de forca.

Ao descer ao porão, tropeça no gato e, em fúria, agarra no machado para matar o gato, só que a mulher tenta defender o animal e é atingida no meio da cabeça. Depois de esconder o corpo por detrás da parede da cave, ele repara que não há sinal do gato. Só quando a polícia chega, e descobre o cadáver escondido, é que é encontrado o gato.

 

Acredito que Poe se serviu da superstição para incutir um certo medo aos leitores. Os gatos pretos eram (e são ainda) associados ao azar ou a bruxas. Se lerem a história, irão verificar que a culpa, pelo incêndio e pela descoberta do cadáver, recai sobre o pobre do gato. 

Ainda me restava alguma coisa do meu antigo coração para que a princípio me afligisse esta evidente antipatia da parte de uma criatura que tanto me amara em tempos. Mas esse sentimento em breve deu lugar à irritação. E apareceu, então, como para me destruir total e irrevogavelmente, o espírito de perversidade. Deste sentimento não se ocupa a filosofia. No entanto, tão certo como a minha alma existe, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano - um dos indizíveis sentimentos ou faculdades primárias que marcam a direcção do carácter do homem. Quem não se surpreendeu cem vezes a cometer uma acção tola ou vil pela simples razão de saber que não se deve cometê-la? Não é verdade que temos uma inclinação perpétua, apesar da excelência do nosso julgamento, a violar aquilo que é lei, simplesmente porque sabemos que é a Lei? 

24
Fev17

A Lua-de-mel, de Sophie Kinsella # 37

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Autora: Sophie Kinsella

Ano:2017

N.º de Páginas: 414
Editora: Quinta Essência
 
Sinopse: Lottie tinha a certeza de que Richard, o seu namorado de longa data, ia pedi-la em casamento. Mas estava enganada. Farta de esperar, decide terminar a relação. O inesperado acontece quando Lottie, ainda a recuperar da desilusão, recebe um telefonema. Do outro lado da linha está Ben, um ex-namorado com quem fizera um pacto insólito no passado. Se, aos 30 anos (ou aos 33…), nenhum deles estivesse casado, casar-se-iam um com o outro. Para Lottie a mensagem é clara: o Destino está a uni-los! Já Fliss, a irmã de Lottie, não tem tanta certeza disso. Ela sabe que, por detrás deste aparente ato arrebatado de paixão, Lottie tem o coração partido. Mas casar com alguém que não vê há 15 anos ultrapassa todos os limites. O problema é que o mal já está feito… A solução? Seguir o casal até à ilha grega de Ikonos e fazer os possíveis (e os impossíveis) para impedir a consumação da união. Fliss rapidamente percebe que contrariar o Destino não é tarefa para os fracos de espírito, algo que ela acredita não ser. Mas à medida que o seu plano avança, uma dúvida paira no ar: estará ela preparada para pagar o preço pela intromissão?
 
Opinião: Já conhecia Sophie Kinsella em "Louca por compras" e, num dia cinzento, em que me sentia mais deprimida, resolvi ler só porque sim, só porque quero e só porque mereço. Nesses dias, nada como olhar para uma capa bonita, cheia de flores, com dois copos de vinho e um casal bonito...Eeeeeh, pela primeira vez na minha vida, escolhi o livro pela capa! Depois, verifiquei que o casal vai para a ilha grega de Ikonos (na realidade existe e o nome é Mikonos). Mar, sol e belas paisagens?! Sim, eu queria tanto passar o fim-de-semana num lugar com uma  paisagem como esta:

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Assim, arrangei uma forma económica de visitar um sítio, usando apenas a imaginação. Mas esperava mais. Esperava descrições dos locais e das comidas. Esperava o humor de "Louca por compras". No entanto, a leitura foi levezinha e serviu o seu propósito: passar um fim-de-semana calminho e aconchegante, um pouco como um "caldo de galinha para a alma". Ah, e eu que estava mesmo a precisar!!!

 

Fliss, a minha irmã mais velha, diz que penso em tecnicolor hollywoodiano e que tenho de me lembrar que as outras pessoa não conseguem ouvir os violinos.

 

22
Fev17

O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós #36

 

 

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Autor: Eça de Queirós

Ano:1993
N.º de Páginas: 487
Editora: Círculo de Leitores
 
Sinopse: "O Crime do Padre Amaro" destaca-se, na obra queirosiana, como um dos títulos que maior controvérsia e incómodo provocou, quer no plano artístico quer no plano moral, desde logo pela forma desassombrada como retrata um certo lado mais obscuro da classe clerical. Este romance viu a luz do dia num contexto espácio-temporal marcado pela agitação e pelo fascínio intelectual e cultural a que não eram de todo alheios o desabrochar para comportamentos ideológicos de ruptura e uma certa radicalização de posições. Fruto de um longo processo de criação, "O Crime do Padre Amaro" conheceu três versões, sendo a última a que é conhecida do público e que se adopta como texto-base desta edição crítica. Nela podemos testemunhar um profundo sentido da exigência estética e da ética da criação artística, bem como a concepção do romance como instrumento crítico, numa atitude literária que espelha já um progressivo afastamento do naturalismo mais acentuado que caracterizou as versões anteriores. O romance narra a relação amorosa entre a jovem Amélia e o padre Amaro, e pode ser entendido, segundo as palavras do próprio autor, como «uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra de uma velha sé de província portuguesa». 
 
Opinião: Eça de Queirós é um dos meus autores preferidos, pelo que fiquei bastante entusiasmada quando soube que tinha sido escolhido para leitura no Clube dos Clássicos Vivos. Reli este livro com satisfação redobrada, pelo menos até à página 200, uma vez que o escritor descreve vários locais em Leiria. De facto, quando o li pela primeira vez tenho a certeza que me passaram ao lado estes pequenos pormenores, que fazem toda a diferença. Além de a história se desenrolar em Leiria e arredores, este romance é bastante "cru" e realista. Muitos seguiam o sacerdócio sem qualquer vocação e, tal como Amaro Vieira, eram obrigados pelos familiares a seguir esse caminho. Mas, quando Amaro conhece Amélia, todo o seu ser (mais a sua carne) reclama por sentimentos nada próprios para um padre. Além de egoísta, Amaro zelou apenas pelos seus interesses, não olhando a meios para atingir os seus intentos. Esta faceta de Amaro é detestável, pois sob uma aparência de "santo" esconde-se a personagem mais perigosa do enredo. Por outro lado, a doce Amélia emana inocência, confiança e acredita em tudo o que ele lhe diz. Talvez por isso, simpatizei com a Amélia e com o seu noivo João Eduardo. Já todos os outros personagens, desde padres a beatas, são um pouco entediantes; a descrição das conversas é longa e aborrecida, e, pelo meio, as comidas bem regadas com muitos santos à mistura (ou, como refere Eça, o "arsenal beato") fizeram com que o ritmo de leitura se tornasse mais lento e arrastado. Porém, a meu ver, isso muda na casa do Sineiro, local onde vive a voz da "consciência" através da paralítica "Tótó". É nesta parte que a história volta a ser interessante e avança novamente. Não temam, pois não vou revelar o desfecho, nem é isso o que pretendo, sob pena de falar aqui umas verdades e manifestar toda a minha monumental indignação, em especial contra atos, que envolvam mulheres e crianças, perpetuados por quem deveria manifestar bondade, solidariedade e ensinar os bons princípios da fé!
 
O bom católico, como a tua pequena, não se pertence; não tem razão, nem vontade, nem arbítrio, nem sentir próprio; o seu cura pensa, quer, determina, sente por ela. O seu único trabalho neste mundo, que é ao mesmo tempo o seu único direito e o seu único dever, é aceitar esta direção; aceitá-la sem a discutir; obedecer-lhe dê por onde der; se ela contraria as suas ideias, deve pensar que as suas ideias são falsas; se ela fere as suas afeições, deve pensar que as suas afeições são culpadas.
 
25
Jan17

Um estranho lugar para morrer, de Derek B. Miller # 35

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Autor: Derek B. Miller

Ano:2014
N.º de Páginas: 303
Editora: Asa
 
Sinopse: Sheldon, um judeu americano, parece ter chegado ao fim da linha. É viúvo, tem 80 anos, e revela sinais de demência. A filha, preocupada, decide levá-lo para Oslo, onde vive com o marido. Um dia, quando o deixa sozinho no apartamento, Sheldon ouve ruídos na escada. Percebe que é uma vizinha a ser perseguida, a tentar proteger desesperadamente um filho pequeno. A mulher acaba por ser morta selvaticamente. Mas o octogenário consegue, in extremis, esconder a criança dos perseguidores. É o ponto de partida de um romance onde tudo nos surpreende. Aos poucos, juntamos as peças do puzzle. Sheldon é afinal um exveterano da Guerra da Coreia, que há décadas vive num secreto inferno, a tentar expiar um crime involuntário. Num último esforço para se redimir, assume como missão salvar o filho da vizinha. Numa terra desconhecida para ambos, começa uma fuga épica, que os levará aos confins da Noruega – e uma perseguição implacável,movida por um gangue kosovar. Um estranho lugar para morrer, considerado o melhor romance do ano por uma série de publicações, desafia qualquer definição. O ritmo e a tensão absolutamente sufocantes remetem para o thriller moderno, do mais fino recorte escandinavo. Mas o autor, um ativista do desarmamento e dos direitos humanos, usa a dramática epopeia de Sheldon para pôr a nu a violência latente na cultura ocidental.
 
Opinião: Li este livro com muita expetativa, afinal foi considerado o melhor thriller moderno, e fiquei à espera da minha cenoura. O Sheldon é um personagem interessante, tem 80 anos, é viúvo, revela sinais de demência e ajuda uma criança a fugir dos assassinos da mãe, que é sua vizinha. Depois acompanhamos esta fuga e a sua história nos tempos da guerra na Coreia, com crimes por desvendar, com conversas com pessoas que afinal já morreram.
Gostei das críticas às políticas de emigração e à sociedade norueguesa. Gostei da descrição do gangue Kosovar, da chefe da polícia local e do próprio Sheldon. Os personagens estão muito bem caraterizados, contudo, a cenoura não apareceu. Onde está o mistério?! No final da história fiquei triste, pois acho que um bocadinho de Agatha Christie seria essencial.
 
Não era hora para estar a pensar naquilo, mas como é que as autoridades podiam pôr a segurança e o bem-estar do povo norueguês -os que são cidadãos e votam e lutaram pela democracia- a seguir ao dos estrangeiros? Uma vida pacífica não devia ser conseguida à custa dos emigrantes, claro, mas também não devia ser relegada para segundo plano.(...) Como é que podemos ser tão totalmente otimistas em relação ao mundo, apenas sessenta anos depois de termos sido ocupados pelos nazis? (pág.144).
24
Jan17

O meu nome é Lucy Barton, de Elisabeth Strout # 34

lucy.jpgAutora: Elisabeth Strout

Ano:2016
N.º de Páginas: 173
Editora: Alfaguara
 
Sinopse: Lucy Barton está numa cama de hospital, a recuperar lentamente de uma cirurgia que deveria ter sido simples. As visitas do marido e das filhas são escassas e pouco aproveitadas por Lucy. A monotonia dos dias de hospital é quebrada pela inesperada visita da mãe, que fica cinco dias sentada à sua cabeceira. Mãe e filha já não se falavam há anos, tantos quantos os que Lucy passou sem visitar a casa onde cresceu e os que a mãe passou sem a visitar em Nova Iorque, nem sequer para conhecer as netas. Reunidas, as duas trocam novidades e cochichos sobre os vizinhos de infância de Lucy, mas por baixo da superfícies plácida da conversa de circunstância pulsam a tensão e a carência que marcaram a vida de Lucy: a infância de pobreza e privação no Illinois, a vontade de ser escritora e a desconfortável sensação de não pertencer a lado nenhum, a fuga para Nova Iorque e a desintegração silenciosa do casamento, apesar da presença luminosa das filhas. Com um passado que ainda a atormenta e o presente em risco iminente de implosão, Lucy Barton tem de focar para ver mais longe e para voltar a pôr-se de pé. Mais do que uma história de mãe e filha, este é um romance sobre as distâncias por vezes insuperáveis entre pessoas que deveriam estar próximas, sobre o peso dos não-ditos no seio das relações mais íntimas e sobre a solidão que todos sentimos alguma vez na vida. A entrelaçar esta narrativa está a voz da própria Lucy: tão observadora, sábia e profundamente humana como a da escritora que lhe dá forma.
 

Opinião : Este livro foi-me oferecido pela Marta como prenda de aniversário. Fiquei em pulgas e muito feliz. Quem é que não gosta de receber um livro? A justificação para esta oferta foi a de que se tratava de uma história da relação entre uma mãe e a filha, o que, quando se tem uma filha adolescente, é relativamente conturbada. Mas quando comecei a ler, verifiquei que a relação de Lucy com a mãe é algo diferente. Não trata da adolescência, mas da filha já adulta e da mãe que não vê desde o seu casamento. No entanto, ela volta a estar com ela ali no hospital, muitos anos depois . É uma conversa entre as duas mas ambas escondem os sentimentos e os pensamentos. Ainda assim, a Lucy fica contente só de poder conversar com a mãe, mesmo sobre pessoas que não voltou a ver. E, nestas conversas, achei muito divertido os nomes que elas colocam nas enfermeiras, tais como a Tosta (magrinha e de seco trato), a Dor de Dentes (sempre desolada) e a Criança Séria (uma índia que ambas gostaram).

Lucy ora conversa com a mãe, ora pensa no seu casamento, nas filhas, e depois volta às memórias do passado, do tempo em que tinha 5 anos e ficava trancada na carrinha, para os pais irem trabalhar e os irmãos estudar. Nesta parte, não sei se compreendi bem ou se a Lucy terá imaginado, há um grande trauma e um segredo que ela não ousa revelar. 

Este livro prende. É preciso ler com calma, pois a escrita é simples mas os avanços e recuos na história podem prejudicar a compreensão das memórias de Lucy, umas reais, outras não sabemos se imaginárias, mas que são reveladores de um sofrimento que admite ter sido necessário para se tornar no que é.

 

Mas quando vejo outras pessoas andarem com autoconfiança pela rua, como se estivessem completamente livres de terror, percebo que não sei como são os outros. Uma grande parte da vida parece especulação (pág. 17).

 

 

31
Dez16

O Livro Pensamento termina hoje, mas para o ano há mais!

Livro 2016.jpg

Quando criei este blogue estava longe de imaginar todo o trabalho que dá. Adoro livros, desde histórias verídicas a tudo o que desafie a mente, pelo que me deparei com um enorme desafio. Conheci pessoas, muitas e simpáticas, escrevi bastante e aprendi ainda mais. Mas falando de livros, na altura, pensei que seria boa ideia procurar livros divertidos. Foi uma saga e conclui que o meu sentido de humor é difícil de atingir e que as gargalhas são cada vez mais preciosas e necessárias, de forma a animar as leituras e o dia-a-dia.  

Os livros lidos desde junho de 2016 (não estão por ordem de preferência e basta clicar na capa do livro para aceder ao respetivo post):

IMG_20160614_194303.jpgas luzes de setembro.jpgprojeto rosie.jpgtransferir (2).jpgIMG_20160630_124303.jpga loja dos suicídios.jpgIMG_20160616_130529.jpg

 

 

manifesto.jpgsubmissão.jpgmataram a cotovia.jpgimage.jpg  anne dos cabelos.jpg

 

 a felicidade.jpgo centenário.jpgo sino da islândia.jpggeração mil euros.jpgmitos.jpg9789722635240.gifdiário de edith.jpgo livro.jpgmiúda.jpgem teu ventre.jpg  A Amiga GenialA Dádiva

 

sorri.jpgmaestra.jpgmaldito karma.jpg   a desumanização.jpgO Amor nos Tempos de Cólera

 Dos 32 livros lidos, na íntegra, realço:

O mais divertido- "Furiosamente Feliz", de Jenny Lawson;

O mais chocante"Maestra", de L. S. Hilton;

O que gostei mais"A desumanização", de Valter Hugo Mãe;

O que gostei menos- "A Dádiva", de Toni Morrison.

E para o ano há mais.

Boas Festas!

29
Dez16

Sorri, de Raina Telgemeier # 32

 

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Autor: Raina Telgemeier
Ano:2015
N.º de Páginas: 213
Editora:Devir
 
Sinopse: Raina só quer ser uma aluna normal do sexto ano. Mas uma noite, depois dos Escuteiros, ela tropeça e cai, ferindo gravemente os dois dentes da frente.O que se segue é uma longa e frustrante jornada, umas alturas com aparelho e outras sem ele, cirurgia, um embaraçoso aparelho externo nos dentes, e até uma prótese com dentes falsos.
E para além disto tudo, ainda há mais coisas com que lidar: um tremor de terra enorme, confusão por causa de rapazes e amigos que afinal revelam que não são assim tão amigos.A história da Raina leva-nos desde o sexto ano à secundária, onde ela descobre a sua voz artística, descobre o que realmente significa a amizade e onde ela finalmente… sorri.

 

Opinião: Este livro, designado de novela gráfica, é mais direcionado para adolescentes, especialmente se vão usar aparelho. Aliás, ofereci-o, pelo Natal, à minha filha, uma vez que ela usa aparelho de dentes e gostava de de ler um livro Manga. Bem, este livro não correspondeu ao pedido dela (e não me perdoa!), mas a história é em BD e é inspirada na experiência da própria autora. Além do aparelho de dentes, foca as paixonetas, as desilusões com amigos e as mudanças físicas.Quem já passou pela adolescência, recordar-se-á da grande preocupação que é a de ser aceite e de ter amigos, não é verdade?
A leitura fez-se de forma rápida, demorei cerca de duas horas, e, satisfeita a curiosidade, fiquei a pensar no tempo em que me entretinha a ler BD. Como passou rápido!
 

raina.jpg

 Tirei da net (aqui).


 
28
Dez16

Maldito Karma, de David Safier # 31

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Autor: David Safier
Ano:2011
N.º de Páginas: 277
Editora:Planeta
 
Sinopse: A apresentadora de televisão Kim Lange encontra-se no melhor momento da sua carreira, quando sofre um acidente e morre, esmagada pelo urinol de uma estação espacial russa. No Além, Kim dá-se conta de que, ao longo da sua vida, se limitou a acumular mau Karma: enganou o marido, descurou a sua filha e amargurou a vida de todos os que a rodeavam. Descobre então o seu castigo: está num formigueiro, tem duas antenas e seis patas… é uma formiga!
Kim não tem a mais pequena vontade de continuar a arrastar migalhas de bolos depois de ter passado a vida a evitar os hidratos de carbono. Além disso, não pode permitir que o marido vá afogar as mágoas da sua perda com outra. Só lhe resta, por isso, uma saída: acumular bom Karma, para ascender na escala da reencarnação e voltar a ser humana. Mas o caminho para deixar de ser insecto e se converter num bípede é duro e está pejado de contratempos.

Opinião: A Kim Lange, famosa apresentadora de TV, é demasiado ambiciosa e a família é sempre colocada em segundo plano. Quando ela morre, Kim tem de reencarnar e praticar boas ações de forma a acumular bom Karma, o que equivale a dizer que: "Para toda ação existe uma reação de força equivalente em sentido contrário". Assim, praticar o bem fará "limpar" as más ações. Ora, enquanto foi viva, Kim traiu o marido, negligenciou a filha e "espezinhou" os colegas de trabalho de forma a subir na carreira. Depois, quando morre, é-lhe dada a oportunidade de reencarnar numa formiga e nessa forma ela vê a filha, o marido e as pessoas com quem deveria ter procedido de outra maneira. Portanto, para obter bom Karma, é necessário que Kim (e o seu amigo Signore) pratique uma boa ação para alcançar o Nirvana. Ah, e morrer várias vezes...uma vez que isso não é tão simples assim.
Na minha opinião, a história faz-nos pensar um pouco naquilo a que devemos realmente dar valor, como a família, os filhos e a todos os seres vivos, por mais pequenos que sejam. Todos somos importantes! Mas, por tratar de assunto como a reencarnação e de algo espiritual, fiquei um pouco desiludida com uma certa artificialidade e infantilidade no tom dado à narração, como por exemplo, quando a Kim está impedida de contar a verdade e só consegue dizer: "todos os patinhos sabem bem nadar". Julgo que, provavelmente, se perdeu algo com a tradução...e espero que, por não ter rido à gargalhada, não apareça por aí uma formiga, um porquinho-da-índia, uma vaca, um esquilo, ou pior, uma cobra (com pernas?!).
A minha morte não teve graça nenhuma. E não foi só porque morri (pág. 9).
Morrer engolida pela Nina foi ainda mais patético do que morrer por causa de um urinol de uma estação espacial (pág. 72).

 

 

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