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Autor: Eça de Queirós

Ano:1993
N.º de Páginas: 487
Editora: Círculo de Leitores
 
Sinopse: "O Crime do Padre Amaro" destaca-se, na obra queirosiana, como um dos títulos que maior controvérsia e incómodo provocou, quer no plano artístico quer no plano moral, desde logo pela forma desassombrada como retrata um certo lado mais obscuro da classe clerical. Este romance viu a luz do dia num contexto espácio-temporal marcado pela agitação e pelo fascínio intelectual e cultural a que não eram de todo alheios o desabrochar para comportamentos ideológicos de ruptura e uma certa radicalização de posições. Fruto de um longo processo de criação, "O Crime do Padre Amaro" conheceu três versões, sendo a última a que é conhecida do público e que se adopta como texto-base desta edição crítica. Nela podemos testemunhar um profundo sentido da exigência estética e da ética da criação artística, bem como a concepção do romance como instrumento crítico, numa atitude literária que espelha já um progressivo afastamento do naturalismo mais acentuado que caracterizou as versões anteriores. O romance narra a relação amorosa entre a jovem Amélia e o padre Amaro, e pode ser entendido, segundo as palavras do próprio autor, como «uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra de uma velha sé de província portuguesa». 
 
Opinião: Eça de Queirós é um dos meus autores preferidos, pelo que fiquei bastante entusiasmada quando soube que tinha sido escolhido para leitura no Clube dos Clássicos Vivos. Reli este livro com satisfação redobrada, pelo menos até à página 200, uma vez que o escritor descreve vários locais em Leiria. De facto, quando o li pela primeira vez tenho a certeza que me passaram ao lado estes pequenos pormenores, que fazem toda a diferença. Além de a história se desenrolar em Leiria e arredores, este romance é bastante "cru" e realista. Muitos seguiam o sacerdócio sem qualquer vocação e, tal como Amaro Vieira, eram obrigados pelos familiares a seguir esse caminho. Mas, quando Amaro conhece Amélia, todo o seu ser (mais a sua carne) reclama por sentimentos nada próprios para um padre. Além de egoísta, Amaro zelou apenas pelos seus interesses, não olhando a meios para atingir os seus intentos. Esta faceta de Amaro é detestável, pois sob uma aparência de "santo" esconde-se a personagem mais perigosa do enredo. Por outro lado, a doce Amélia emana inocência, confiança e acredita em tudo o que ele lhe diz. Talvez por isso, simpatizei com a Amélia e com o seu noivo João Eduardo. Já todos os outros personagens, desde padres a beatas, são um pouco entediantes; a descrição das conversas é longa e aborrecida, e, pelo meio, as comidas bem regadas com muitos santos à mistura (ou, como refere Eça, o "arsenal beato") fizeram com que o ritmo de leitura se tornasse mais lento e arrastado. Porém, a meu ver, isso muda na casa do Sineiro, local onde vive a voz da "consciência" através da paralítica "Tótó". É nesta parte que a história volta a ser interessante e avança novamente. Não temam, pois não vou revelar o desfecho, nem é isso o que pretendo, sob pena de falar aqui umas verdades e manifestar toda a minha monumental indignação, em especial contra atos, que envolvam mulheres e crianças, perpetuados por quem deveria manifestar bondade, solidariedade e ensinar os bons princípios da fé!
 
O bom católico, como a tua pequena, não se pertence; não tem razão, nem vontade, nem arbítrio, nem sentir próprio; o seu cura pensa, quer, determina, sente por ela. O seu único trabalho neste mundo, que é ao mesmo tempo o seu único direito e o seu único dever, é aceitar esta direção; aceitá-la sem a discutir; obedecer-lhe dê por onde der; se ela contraria as suas ideias, deve pensar que as suas ideias são falsas; se ela fere as suas afeições, deve pensar que as suas afeições são culpadas.
 

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15 comentários

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De Chic'Ana a 22.02.2017 às 08:49

Acreditas que nunca li?! Tenho de o ler =)
Beijinhos
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De Edite a 22.02.2017 às 09:37

Também há o filme mas eu prefiro o livro. 
Beijinhos
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De Bárbara Ferreira a 22.02.2017 às 21:56

Li muito pouco Eça, mas gostei muito deste! Senti que era precisamente essa faceta detestável, hipócrita, do clero que pretendia passar. Capa bonita :)
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De Edite a 22.02.2017 às 23:35


As críticas do Eça mantêm-se atuais, quer ao clero quer à sociedade. E dou outro exemplo com um excerto d`As Farpas:

“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As quebras sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo”.


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De Bárbara Ferreira a 23.02.2017 às 19:26

Muito obrigado pelo excerto! Sem dúvida actual; aí está outra obra que terei de ler.
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De Edite a 23.02.2017 às 23:15

Aconselharam-me a ler na cadeira de ciência política. Li mas não recordo muito coisa, porque são tipo crónicas. Este excerto é um exemplo de que não esqueço pela crítica e por manter a atualidade.
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De Narciso Santos a 22.02.2017 às 23:43

Sempre um excelente livro, Eça é sempre Eça e um dos meus autores portugueses preferidos! Image
P.S. se colocarem a Soraia Chaves nua... Melhor Ainda!
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De Edite a 23.02.2017 às 09:53

Também o meuImage
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De Edite a 23.02.2017 às 23:15

Gosto mais do livroImage
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De Narciso Santos a 24.02.2017 às 00:23

Soraia chaves Naked bate qualquer best seller Image
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De Maria Glória D'Amico a 23.02.2017 às 20:23

Olá Edite, boa tarde!
Um livro que já li e gostei muito. Mas hoje, a tua foto é a estrela deste post, maravilhosa! Parabéns! 
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De Edite a 23.02.2017 às 23:08

A sério?! Tirei todas as fotos com o telemóvel. 
Quanto ao livro, foi uma releitura. Ultimamente tenho feito algumas e é muito engraçado voltar a ler livros que li quando tinha aí 15 anos. Lembrava-me da paralítica e de eles irem para o quarto, mas pouco mais. 
Gostei muito e adorei fazer o passeio despreocupada.
Beijinhos grandes
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De Anónimo a 25.02.2017 às 17:58

Sim, a foto está muito especial para os meus olhos. O fundo é encantador! A luz na capa do livro encanta! 
Eu gosto imenso de andar sem rumo, devagar, olhar para cima, para os lados e apenas sentir. Gosto de fazer caminhadas assim em silêncio. 
Querida amiguinha, tenha um ótimo final de semana. Por aqui chove sem parar, ontem com muitos trovões. Bom que refrescou, pois o calor estava insuportável. 
Bom carnaval e muitas beijocas Image 
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De Daniela a 25.02.2017 às 18:14

Uau, começas logo com uma fotografia da Sé de Leiria :)
Gostei da tua opinião, realmente a menina designada Totó é a voz da consciência daqueles personagens.


Beijinhos*
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De Edite a 25.02.2017 às 21:40

Agradeço e estou a adorar a experiência. Vamos ver como vai correr "Paris é uma Festa" do Hemingway. Já ouvi dizer que não é fácil de lerImage
Beijinhos e obrigada pela visita.

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