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O Livro Pensamento

O Livro Pensamento

Qua | 11.01.17

Flores, de Afonso Cruz # 33

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Autor: Afonso Cruz
Ano:2015
N.º de Páginas: 275
Editora: Companhia das Letras
 
Sinopse: Um homem sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o facto de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo - e constatar o quanto a sua vida se afastou dela - decide ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Uma história inquietante sobre a memória e o que resta de nós quando a perdemos. 

Opinião: "Viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias", eis uma citação que diz muito com tão pouco. Para começar, já passaram alguns anos (não sei quantos) desde que li um livro que me tocasse. Mas aconteceu com esta leitura. A riqueza das palavras é temperada pela sua súbtil simplicidade e, talvez por ser possível "tocar" cada uma dessa palavras, sentimos algo especial.
"Altitude", a meu ver, é aquela em que  sabemos que as nuvens estão lá mas não as podemos apalpar; em que sonhamos mas a realidade esmaga o peito como pedras. Assim sendo, numa história que começa com a morte do pai do narrador, em que se fale em separação e em perda da memória do vizinho, a maestria nas palavras arrebata-nos por completo. Ou seja, comentar muito mais seria estragar o que está muito bem feito.

 

Fui presa três vezes por causa das palavras. Podia esconder coisas incríveis em palavras tão banais que até me dava dores de estômago. Dizer sapatos ou pão ou sol poderia conter tantos significados. Ou simplesmente sardinha. Um peixe tem muitos nutrientes, não sei nomeá-los a todos, mas com as palavras acontece o mesmo. Têm óleos, vitaminas, proteínas, são a sua maneira de ser muito mais do que aquilo que são. Têm espinhas, quem é que nunca encontrou palavras com espinhas? Nadam, todas elas. Podemos olhar para uma frase e percebemos que aquilo é um mar, uma maneira de ser feroz, de navegar, de viajar, de ter peixes, de ter lágrimas. Eu acreditava que as frases eram armas capazes de mudar, de lutar, de resistir. Armas capazes de disparar um futuro (pág. 90).

 

 

 

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