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O Livro Pensamento

O Livro Pensamento

Qui | 29.06.17

O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway | Livro secreto # 4

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"O Velho e o Mar" foi escrito em 1951, em Cuba, mereceu o Prémio Nobel da Literatura no ano de 1954, e eis senão quando este livrinho chegou ao meu correio (não, não recebi de nenhuma editora e, sim, recebi do grupo do livro secreto. O meu eterno agradecimento).

Em "Paris é uma Festa" fiquei com a ideia de que seria um livro de memórias do próprio escritor e n´" O Velho e o Mar" julguei que se trataria de uma metáfora utilizada para descrever as dificuldades da vida bem como a resiliência imprescindível para as vivenciar e ultrapassar. Mas depois conto melhor o que se passou.

 

O personagem principal é um velho pescador cubano, chamado Santiago, que ficou sem conseguir pescar um peixe durante 3 meses. Santiago tem a ajuda e apoio do jovem Manolin. Já em mar alto, lembra-se constantemente do jovem, pois já é velho e sente que já não tem a força de antes. Quando finalmente apanha um peixe enorme, trava uma luta, com o peixe, durante 3 dias e 3 noites, acabando cercado por tubarões. Com dores e feridas nas mãos, com fome e sede, sente que vai morrer ali, mas aguenta todos os "golpes" para levar o grande peixe consigo.

Durante esse tempo, o velho Santiago dialoga consigo mesmo, com o mar, com as aves, com o peixe, e sente a falta do seu jovem amigo Manolim, o qual lhe devota um grande respeito e lhe alivia o sofrimento imposto pela idade.

 

É, portanto, num estilo simples que é narrada esta história, cheia de termos ligados à pesca e à vida em alto mar. A narrativa é sobre o velho e sobre a vida no mar e é, a meu ver, muito convicente, direi antes um retrato fiel de alguém com quem Hemingway constumava pescar o peixe Marlim azul, alguém que se chamava Gregório Fuentes e que morreu 40 anos depois do escritor.

Portanto, nada mais lógico do que associar a história à própria vida difícil dos pescadores, bem como de todos os que precisam de coragem para enfrentar e superar as dificuldades. 

 

Mas há quem entenda as palavras de outra forma, associando: Hemingway ao velho pescador, o peixe ao seu talento literário e os tubarões aos críticos do seu trabalho; ou, ainda, à fé e à religião.

O que é certo é que o próprio Hemingway negou a existência de qualquer simbolismo quando afirmou que: "O mar é o mar. O velho é um velho. Os tubarões são tubarões, nem melhores nem piores".

 

Em "Paris é uma Festa" descreveu a obra como uma fição e em  "O Velho e o Mar" refere que não há simbolismo nenhum? Acham que voltou a baralhar os leitores?

A minha interpretação é a de que não. Para o escritor não há simbolismo para a Vida, ela é, e sempre foi, exatamente assim, tal como na história.  

As aves têm uma vida mais dura que a nossa, à excepção das de rapina e das muito fortes. Porque há passaros tão delicados e finos como essas andorinhas quando o oceano pode ser tão cruel? É gentil e muito belo. Mas sabe ser tão cruel e sê-lo tão de súbito que tais pássaros que voam e mergulham à caça, com as suas vozinhas tristes, são demasiado delicados para o amor.

 

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O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway

Editado em 1952

Editora Livros do Brasil

 

 

Qua | 28.06.17

Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz

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Opinião: Penso que este livro poderá ser qualificado (e não quantificado) como um conto cujos elementos distópicos servem de crítica a uma sociedade que dá mais importância às questões económicas ou financeiras.

As próprias pessoas são números (nós somos números) e tudo pode ser quantificado incluindo o próprio amor.

 

A narrativa é feita na primeira pessoa e pelos olhos de uma menina, que vive com o pai, a mãe e o irmão, vamos conhecendo certos aspetos dessa sociedade sui generis em que são utilizadas expressões económicas como "contenção orçamental", "desvio colossal" , entre outras. A expressão que mais me intrigou foi "Por Mamon", e após pesquisa verifiquei que é um termo da Bíblia que é usado para descrever a riqueza material e a cobiça. Portanto, numa sociedade consumista e materialista, ao invés de se apelar a Deus, é óbvio que se tem de invocar "Mamon", divindade relacionada com o dinheiro.

 

A história é bem pequena e tudo começa quando a criança sugere que se compre um poeta (Um poeta e não artista, pois este suja mais!). O poeta ou vate é marreca e é o mais barato que existe na loja. A família leva-o para casa e, para não gastar mais dinheiro, instala-o debaixo das escadas (tal como o Harry Potter). É claro que o poeta não é esquisito e não estranha o acolhimento. Ao princípio ninguém o entende mas quando começam a perceber surgirão algumas mudanças na família.

Gostei muito desta história. Acho que há aqui uma espécie de dualismo entre o materialismo (representada por aquela família) e a parte espiritual (representada pelo poeta, pelo artista ou, em suma, pela cultura). Assim, podemos, de forma divertida, entrar em modo de pensamento crítico e associar à nossa sociedade atual a ideia de que devemos dar importância à cultura. 

A cultura não se gasta.Quanto mais se usa, mais se tem.

 

Um poeta é como quem sai do banho e passa a mão pelo espelho embaciado para descobrir o seu próprio rosto.

 

Sinopse: Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação.
A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual...
Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

 

 

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Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz

Editado em 2016 pela Caminho

ISBN- 078- 972-21-2799-8

Ter | 27.06.17

Línguas-de-gato | O amor está no ar #34

Olá. Estou de volta. Tenho feito muito desporto. Sofá, sala, cozinha e vice-versa. É um desafio e tanto, especialmente com tanto calor. Abanar a cauda não dá resultado. Já comprovei isso. Então, procuro sítios bem fresquinhos para me deitar todo esparramadinho. Que bem que sabe! (Que pena não poder despir o meu fato de pelo).

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Já a Pipoca, essa anda na sua vida apaixonada e irrita-me até aos pelos finais do bigode com tanta pergunta sobre o Amado gato da vizinha. Se pudesse, dava-lhe um banho de água fria. Não, não estou ser um mau gato, uma vez que era  só para refrescar (só que não). Mas se o pensei melhor o fiz. Miau.Humpf. Primeiro tinha de fazer a experiência. Abri a torneira e, com alguma dificuldade, as patinhas pequenas e felpudinhas deram um toque de gato genial e o banho que tomei deixou-me cheio de ideias frescas (pudera!).

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A Pipoca surpreendeu-me e saltou logo para a banheira. Disse-me que andava a observar as humanas com biquinis reduzidos. E disse ainda que as humanas na água da piscina são muito bonitas. Coitada, deduzir que molhar-se ia deixá-la com ar de boazona para o seu Amado. Pru Pru Pru (sim, sou eu a dar risadas).

A Dona chegou a tempo de a salvar e ficou admirada com o seu estado de magreza. 

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 Depois conto mais, pois estou a ser perseguido por uma gata enraivecida. 

Francamente...

Qui | 22.06.17

A Livraria dos Finais Felizes, de Katarina Bivald

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Sara, a protagonista, é uma bibliófila, adora ler e trabalhou numa livraria na Suécia. Assim, quando a livraria fechou as portas, resolve visitar a Amy em Broken Wheel, uma pequena cidade norte-americana do Iowa. Amy e Sara tornaram-se amigas, à distância, através das cartas que foram trocando. Ambas adoram ler e trocar as suas experiências literárias. Porém, quando Sara chega a Broken Whell, Amy tinha acabado de sucumbir a uma doença grave e não a chega a conhecer. Mas Sara não desiste e resolve abrir uma livraria com os livros de Amy, despertando, aos poucos, nos moradores, o gosto pela leitura.

 

Este livro foi-me recomendado pela Magda e estava à minha espera (e eu à espera dele) e, quando lhe peguei, não consegui parar. Aliás, a frase "Há sempre uma pessoa para livro"confirma-se em cheio. Se, por um lado, as referências literárias multiplicam-se ao longo do livro de uma forma natural (e gigantesca, conforme lista de autores que a Roberta Frontini apontou e indica aqui), por outro lado, o leitor sente-se como se estivesse em Broken Whell, como se conhecesse os moradores e os livros de Amy.

 

A Livraria dos Finais Felizes é um daqueles livros em que temos uma protagonista jovem, normal, simples, e sempre "com o nariz enfiado nos livros", mas cuja simplicidade irá "revolucionar" a vida dos outros. E quando ela julga estar a ajudar os moradores e a retribuir a sua hospitalidade, percebemos que está, no fundo, a ajudar-se a si própria (ainda que ela não se aperceba disso). O mais interessante é que irá ter de passar por situações reais, o que a levará a compreender que aquelas pessoas, aqueles moradores de uma cidade pequena desinteressante, são muito importantes. Os livros "são melhores do que a realidade (...). Mais grandiosos, mais divertidos, mais bonitos, mais trágicos, mais românticos",  porém, em Broken Whell, Sara sentir-se-á em casa. E quem não estaria ao sentir-se rodeada de amigos "reais" e de uma livraria repleta dos fiéis livros?!

 

Numa última análise, considero que "A Livraria dos Finais Felizes" é uma ode aos que "respiram livros"  e que não passam sem eles, mas na qual a escritora utiliza, com habilidade, uma mensagem estratégia que leva a que os livrólicos concluam o seguinte: é preciso ler e é imprescindível viver... 

 

Os livros tinham constituído uma defesa, sim, mas não era só isso. Tinham protegido Sara do mundo à sua volta, mas também o tinham transformado num difuso pano de fundo para as verdadeiras aventuras existentes na sua vida.

 

Livros de capa mole e de capa dura tinham um cheiro diferente, mas também existiam disparidades entre as edições de bolso inglesas e suecas (...) Curiosamente, os manuais para o público adulto cheiravam ao mesmo que os livros escolares: o aroma familiar das salas de aula, ar viciado e desassossego.

 

Sinopse:Há sempre uma pessoa para cada livro e um livro para cada pessoa."A Livraria dos finais felizes é uma história comovente sobre o poder Se a vida fosse um romance, o da Sara certamente não seria um livro de aventuras. Em vinte e oito anos nunca saiu da Suécia e nenhum encontro do destino desarrumou a sua existência. Tímida e insegura, só se sente à vontade na companhia de um bom livro e os seus melhores amigos são as personagens criadas pela imaginação dos escritores, que a fazem viver sonhos, viagens e paixões. Mas tudo muda no dia em que recebe uma carta de uma pequena cidade perdida no meio do Iowa e com um nome estranho: Broken Wheel. A remetente é uma tal Amy, uma americana de 65 anos que lhe envia um livro. E assim começa entre as duas uma correspondência afetuosa e sincera. Depois de uma intensa troca de cartas e livros, Sara consegue juntar o dinheiro para atravessar o oceano e encontrar a sua queria amiga. No entanto, Amy não está à sua espera, o seu final, infelizmente, veio mais cedo do que o esperado. E enquanto os excêntricos habitantes, de quem Amy tanto lhe tinha falado, tomam conta da assustadora turista (a primeira na história de Broken Wheel), Sara decide retribuir a bondade iniciando-os no prazer da leitura. Porque rapidamente percebe que Broken Wheel precisa de um pouco de aventura, uma dose de auto-ajuda e, talvez, um pouco de romance. Em suma, esta é uma cidade que precisa de uma livraria. E Sara, que sempre preferiu os livros às pessoas, naquela aldeia de poucas gentes, mas de grande coração, encontrará amizade, amor e emoções para viver: e finalmente será a verdadeira protagonista da sua vida.

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A Livraria dos Finais Felizes, de Katarina Bivald

Editado em abril de 2016 pela Suma de Letras

ISBN: 978-989-665-070-4

 

 

Qua | 21.06.17

Felicidade Roubada, de Augusto Cury

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Este é o segundo livro que li do Dr. Augusto Cury, pois adoro psicologia, especialmente quando explicada de uma forma leve e acessível, como é o caso. Além disso, tem um ingrediente especial, que aprecio muito, uma vez que a história é baseada em factos reais.

 

Se já não se recordam, lembro que se trata de de mais um livro do psiquiatra, psicoterapeuta e escritor Augusto Cury, em que se aborda, de forma romanceada, o tema do esgotamento e dos ataques de pânico e ansiedade.

 

O personagem principal é um neurocirurgião famoso e com uma brilhante carreira que se chama Dr. Alan de Alcântara. Ele é, ainda, muito exigente, profissional e diz tudo o que pensa. Porém, apesar de conhecer muito bem o cérebro, desconhece que que o seu também tem limites. Ele é acima de tudo um Workaholic e vive exclusivamente dedicado ao seu trabalho, negligenciado a filha e a mulher.

O Dr. Marco Polo aparece como psiquiatra do Dr.Alan, o que não esperava mesmo nada. Se quiserem podem ler a opinião sobre A Saga de Um Pensador (aqui), o qual continua a ser o meu preferido. 

 

O que gostei menos no livro Felicidade Roubada e não constatei no outro? Eu respondo, foram os diálogos, quase como os do Tomás de Noronha nos livros de José Rodrigues dos Santos, e a escrita no português do Brasil. Os livros do Dr. Augusto Cury tiveram um volume de vendas enorme no Brasil, mas, para mim, torna-se estranho frases como:

-Você cobra demasiado de si?-perguntou o psiquiatra.

-Muito. Todos os dias. Olho para o meu passado bem-sucedido e comparo-o com aquilo em que tornei. Isso fez brotar em mim um sentimento de vergonha e de raiva.

-Na verdade, provavelmente sempre cobrou de si próprio. E quem cobra demasiado de si próprio sabota a sua saúde emocional, aumenta os níveis de exigência para ser feliz- afirmou o doutor Marco Polo.

  

Sinopse:E se de repente você perdesse a capacidade de fazer aquilo que dá sentido à sua vida? E se fosse paralisado pelos seus medos? Alan de Alcântara é um neurocirurgião bem-sucedido, que dedica grande parte do seu tempo à medicina. Cético e pragmático, não reconhece qualquer sinal de fraqueza em si e tem dificuldade em lidar com pessoas lentas.A sua vida profissional suga toda a sua energia, e, apesar de amar a sua inteligente filha Lucila e a sua adorável esposa Cláudia, mal convive com elas. Pensa que o amor é algo incondicional e não precisa de ser cuidado... Durante uma cirurgia, no entanto, Alan é acometido por uma crise de pânico e não é capaz de terminar o procedimento, deixando a responsabilidade para o seu auxiliar. Alan convence-se de que está a sofrer um ataque cardíaco, e não admite o diagnóstico: transtorno psíquico. O seu mal-estar jamais poderia ter origem emocional, pensa; isso é para fracos. Alan verá as suas certezas desmoronarem-se perante a doença – que irá significar, em última instância, uma oportunidade rara de se reconstruir como ser  humano. 

Ter | 20.06.17

Boneca de luxo, de Truman Capote

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Boneca de Luxo é o título traduzido do romance de Truman Capote, o qual foi escrito em finais de 1950 e publicado em 1958. A história começa pelo fim e o narrador, que não revela o seu nome, começa a contar, quinze anos depois, o ano que passou na companhia de Holly Golightly. E foi no ano de 1943 que algo captou a atenção do narrador: a caixa de correio da vizinha e o cartão sugestivo na mesma "Em Viagem".

Holly, a vizinha, é jovem, bonita, loura e ambiciosa, gosta de grandes festas e de estar rodeada de homens influentes. 

Basicamente o tema central, neste pequeno livro, é o da amizade e da liberdade. Holly é livre. Holly busca a sua felicidade, a fama e o sucesso, de forma a ter sempre quem a sustente.Os amigos facilmente se apaixonam e "Fred", como é chamado por Holly uma vez que lhe lembra o irmão, é o escritor/narrador e vizinho de Holly.

Esta é uma das obras mais elogiadas de Truman Capot, mas, apesar de ter gostado da escrita e da leitura rápida, não me encheu as medidas. Ainda assim vou dar outra oportunidade com "Sangue Frio" (perceberam o trocadilho?).

A nossa casa é onde nos sentimos em casa. E eu ainda estou à procura. 

 

Sinopse:Holly Golighly é mais do que uma boneca de luxo. Deslumbrante, espirituosa e ternamente vulnerável, inquietando as vidas dos que com ela se cruzam, é retratada por Truman Capote em Breakfast at Tiffany’s (Boneca de Luxo), um romance tocante e singelo sobre a amizade, que constitui uma autêntica história de sedução.

Seg | 19.06.17

A incrível e triste história de uma sombra

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A insurgente sombra grita, em desespero mudo, profundamente abalada pelos sonhos que trespassaram os seus olhos inexistentes. Deixa para trás a luz envolta em seda de papel. Mirra a vontade, aparentemente, nublada na conversa suscitada pela mulher, em pranto, mirrada na inércia dos seus sapatos pretos de verniz.

A insurgente sombra grita em desespero surdo e sai cá para fora a negra banalidade, o dualismo em duas versões:a dos sapatos pretos dos outros e a de quem escolhe a sombra pesadelo de viver-ignorar.

A insurgente sombra chora comovida.não entende a lógica.nem a vida.

 

 

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